serendipidade

Alimentar a mente é prepará-la para o acaso. O feliz acaso.

Lisa Zigue

É da opinião de que nem tudo está perdido... É necessário um olhar para lá da linha do horizonte e passar as mensagens certas.

Jackson C. Frank: a vida pelos Blues

O músico Jackson C. Franck nasceu em Buffalo, Nova Iorque (1943). Quase perdeu a vida muito novo, num acidente brutal que o viria a colocar no seu caminho. O caminho de um músico talentoso e tímido, que tocava a alma de quem se cruzava com ele. A sua vida sofrida traduziu-se num único álbum, que serviu de inspiração para muitos outros músicos, que se seguiram. Nick Drake é um deles.


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Aos 6 anos, Jackson era o membro mais novo do coro da igreja. “A escola lá era construída com tijolo, mas tinha um anexo em madeira que era utilizado para aulas de música.” – Explicou ele em 1995 numa entrevista para uma revista de Folk. “Era aquecido por uma grande caldeira. Um dia durante as aulas de música, a caldeira explodiu. Quase morri nesse dia. Quase todos os meus colegas morreram. Passei 7 meses no hospital, a recuperar das queimaduras.”

Esses ferimentos físicos e psicológicos o acompanhariam até ao resto da sua vida. Enquanto recuperava no hospital aprendeu a tocar guitarra.

Por volta dos 16 anos, já tinha um duo de rock n’roll com um baterista, mas o seu gosto pendia para as canções antigas – particularmente canções com história – e envolveu-se na cena folk local começando a levá-la mais a sério. Ainda chegou a candidatar-se para o curso de jornalismo, na perspectiva de um apoio seguro, mas em 1964 quando fez 21 anos e atingiu a maioridade, recebeu uma pequena fortuna do seguro pelo incêndio, do qual tinha sofrido. Aqui dá-se mais uma reviravolta na sua vida, e largando tudo, apanhou um barco para a Inglaterra – o sítio "a estar" para os músicos folk, apesar de não ter sido essa a motivação principal, pois também nutria um gosto especial por carros.

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Com a guitarra como companheira, em 1965, escreveu a primeira música “blues run the game”. Tingida, como muito do seu trabalho seria, por melancolia e um pouco de força na adversidade. Continha o estilo de vida, sonhos e medos daqueles que escolhem o caminho incerto de viver da música. Na Inglaterra a recepção foi boa e havia quem quisesse gravar.

“Blues run the game” foi mais tarde tocada por outros artistas, como Simon and Garfunkel, Sandy Denny, Nick Drake, John Mayer, Counting Crows, entre outros.

O seu percurso continuou musicalmente activo, com encontros e apoio de várias pessoas do mundo da música da altura, num contexto propício à sua divulgação, a juntar-se ao seu talento inspirador, nas letras e melodias. No entanto, Jackson mantinha sempre a sua postura introvertida e tímida, acabando por ser influenciador da cena musical, mas sem nunca se mostrar firmemente, nem com notoriedade, como outros músicos da época, cujas carreiras iam evoluindo.

Nunca havia ninguém para fotografar, para escrever artigos sobre ele, para registar os momentos musicais, nem filmar. São poucos os registos de Jackson C. Frank. As coisas aconteciam sempre sem aviso prévio e apenas para beneficiar outros que estivessem na mesma sala, no momento. Um desses raros momentos, são uns poucos segundos de uma actuação de Jackson, com “Just like anything” num documentário sobre a cena folk londrina.

Talvez o momento mais importante que levou Jackson à sua curta, mas brilhante carreira, foi através de Judith Piepe, assistente social com um fraquinho por cantores folk: “Ela disse-me que queria apresentar-me a dois cantores que estavam alojados no seu apartamento. Eles eram Paul Simon e Art Garfunkel. Por essa altura eu já escrevia e actuava com o meu próprio material. Então toquei algumas coisas para eles. Simon gostou tanto das minhas músicas que se ofereceu para produzir o meu disco. Eu imediatamente disse que “Sim!”

Mas não foi simples. Para conseguirem gravar as suas músicas, tiveram de prestar um grande apoio a Jackson e escondê-lo atrás de um biombo, pois ele não conseguia cantar e tocar com as pessoas olhando. O álbum foi lançado em Dezembro de 1965. Era uma expressão genuína daquilo que ele sentia. Apesar de uma vida sofrida e incerta, nunca se colocou atrás de uma máscara de auto-piedade. No entanto, não conseguiu dar seguimento ao álbum, talvez por timidez e nervosismo de se mostrar ou falta de inspiração para criar mais.

Sem encontrar trabalho e com falta de dinheiro, Jackson trocou a Inglaterra por Woodstock, Nova Iorque em 1967, voltando ao jornalismo, tornou-se Editor para o “Woodstock Week” e casou com a ex-modelo Elaine Sedgwick.

No Verão de 1968, é visitado pelo seu amigo Al Stewart, que fez parte da gravação do álbum,e que lhe pede o regresso a Inglaterra, para continuar o que tinha deixado. E assim começou uma tournée que continuou até 1969.

Jackson teve 2 filhos. Entrou numa depressão profunda com a morte do filho mais velho, devido a um fibrose cística. Foi internado, traçando o final da carreira, bem como o final do casamento. No início dos anos 70, começou a pedir ajuda aos amigos e houve mesmo, quase um regresso à cena musical, com a gravação de 5 músicas em estúdio.

Essas músicas: "Marlene", Marcy's song","The Visit", "Madonna of Swans" e "Relations" pareciam crescer em profundidade e ressonância com os anos passados e até mesmo com a morte do autor em 1999.

A história de Jackson, desses meados dos anos 70 até finais de 90, é triste. Em resumo, tendo voltado para Buffalo para viver com os pais no início dos anos 80, uma série de eventos ocorreu. Sendo a mãe internada no hospital, tomou consciência da vontade de partir à procura do seu amigo Paul Simon. A seguir, uma combinação de vários internamentos em hospitais psiquiátricos, medicação inapropriada e problemas de tiróide (outra consequência do incêndio na escola), deixaram-no irreconhecível, confuso e perdido. Vagueava pelas ruas e a família acreditava que tinha morrido.

"Não podia regressar. Não tinha uma guitarra. Os meus direitos eram-me negados. Diziam-me que eu era paranóico-esquizofrénico e tratado como tal, e não era - estava tudo relacionado com trauma."

Mais tarde foi localizado, e arranjaram-lhe lugar num lar para seniores em Woodstock. De aspecto completamente arrasado e uma voz acabada, o espanto foi geral. Lamentado.

Enquanto esperava pela mudança para Woodstock, uma dia, sentado num banco em Queens, foi alvejado por uma bala solta no olho esquerdo, ficando cego. Um caso de estar no sítio errado, na hora errada.

Chegou a ir depois para Woodstock, onde ainda tentou gravar algumas músicas novas... Morreu de pneumonia e paragem cardíaca a 3 de Março de 1999, com 56 anos.

Toda a sua obra está compilada no álbum, único e especial: "Blues run the game", onde não existe espaço para a dor, apenas para a esperança. Aclamado, inspirador e respeitado.

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Lisa Zigue

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