serendipidade

Alimentar a mente é prepará-la para o acaso. O feliz acaso.

Lisa Zigue

É da opinião de que nem tudo está perdido... É necessário um olhar para lá da linha do horizonte e passar as mensagens certas.

Rabindranath Tagore, grande mestre

Assim o chamava Gandhi, "grande mestre". Poeta, romancista, músico e dramaturgo, reformulou a literatura e a música bengali no final do século XIX e início do século XX e conquistou em 1913 o prémio Nobel da literatura. Conheceu Albert Einstein e as conversas entre ambos fizeram um livro.


Tagore 1.jpg

A flor de lótus

  • No dia em que a flor de lótus desabrochou,
  • A minha mente vagava, e eu não a percebi.
  • Minha cesta estava vazia, e a flor ficou esquecida.
  • Somente agora e novamente, uma tristeza caiu sobre mim.
  • Acordei do meu sonho sentindo o doce rastro
  • De um perfume no vento sul.
  • Essa vaga doçura fez o meu coração doer de saudade.
  • Pareceu-me ser o sopro ardente no verão, procurando completar-se.
  • Eu não sabia então que a flor estava tão perto de mim,
  • Que ela era minha, e que essa perfeita doçura
  • Tinha desabrochado no fundo do meu próprio coração

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Rabíndranáth Thákhur (Tagore para o ocidente) nasceu a 6 de maio de 1861 em Calcutá, no seio de uma família abastada e foi educado de acordo com as tradições. Fez os seus estudos em Direito na Inglaterra entre 1878 e 1880, regressando à Índia para gerir as propriedades rurais da família. Dedicou-se ao desenvolvimento da agricultura e a projetos de saúde e educacionais.

A sua aptidão para a poesia manifestou-se cedo. Com oito anos de idade, já fazia versos. Aos doze, teve a satisfação de ter a aprovação do seu venerado pai, que exclamou:

— Se o rei conhecesse a língua da nossa terra e pudesse apreciar-lhe a literatura, recompensaria por certo o poeta.

Com uma vasta obra poética, que compreende três mil poemas sobre temas religiosos, políticos e sociais, estimulou a renovação da literatura na língua bengali. A obra em prosa, orientada por preocupações humanistas, é extensa, desmultiplicando-se em novelas, ensaios e contos. O volume de poesias mais conhecido é "Oferenda Poética" (1913-1915). Como músico, compôs duas mil canções.

Em 1901, Tagore fundou uma escola de filosofia em Santiniketan. Sofreu as dores de perder a mulher e dois dos seus filhos e entre 1902 e 1907 dedicou-se a escrever poemas místicos, alguns deles a serem encontrados em "Oferenda Lírica", publicado em 1910. O impacto desta obra a nível internacional valeu-lhe a indicação para o Prémio Nobel da Literatura, recebido em 1913. Em 1919, renunciou ao título de Sir, em protesto à política inglesa em relação à Índia.

A partir de 1921, Tagore passou a divulgar o ensino da Universidade Internacional de Visva-Bharati, que ajudou a fundar. A sua contribuição para a aproximação entre a cultura ocidental e a cultura oriental foi notável. Faleceu aos 80 anos em Bengala.

Rabindranath Tagore foi aclamado por Gandhi como "Grande Mestre" e foi reconhecido por todos os indianos como o "Sol da Índia". Foi Tagore quem, pela primeira vez, em 1919, se referiu a Gandhi como Mahatma (do sânscrito A Grande Alma), quando este o visitou pela primeira vez.

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Interminável Amor

  • Parece-me que te amei de inúmeras maneiras, inúmeras vezes,
  • Na vida após vida, em eras após eras eternamente.
  • O meu coração enfeitiçado fez e voltou a fazer o colar das canções
  • Que tomaste como uma prenda, usando-o à volta do pescoço de
  • tantas e tantas formas.
  • Na vida após vida, em eras após eras eternamente.
  • Sempre que oiço as antigas crónicas do amor, a sua antiga dor,
  • O seu antigo conto de estar só ou acompanhado,
  • Quando contemplo o passado, no fim tu apareces
  • Vestida com a luz da Estrela Polar que trespassa a escuridão do tempo:
  • Tornas-te uma imagem do que é recordado sempre.
  • Tu e eu flutuámos aqui na corrente que traz da nascente
  • Para o coração do tempo o amor de um pelo outro.
  • Representámos lado a lado milhões de amantes, partilhando
  • A mesma tímida doçura do encontro, as mesmas amarguradas
  • lágrimas do adeus -
  • Antigo amor, mas renovando-se e renovando-se sempre.
  • Hoje ele acumulou-se aos teus pés, encontrando o seu fim em ti,
  • O amor de todos os dias, de todos os homens, do passado e de sempre:
  • Universal Alegria, universal mágoa, universal vida,
  • As recordações de todos os amores surgindo com este nosso amor -
  • E as canções de todos os poetas do passado e de sempre.

Cântico da Esperança

  • Não peça eu nunca
  • para me ver livre de perigos,
  • mas coragem para afrontá-los.
  • Não queira eu
  • que se apaguem as minhas dores,
  • mas que saiba dominá-las
  • no meu coração.
  • Não procure eu amigos
  • no campo da batalha da vida,
  • mas ter forças dentro de mim.
  • Não deseje eu ansiosamente
  • ser salvo,
  • mas ter esperança
  • para conquistar pacientemente
  • a minha liberdade.
  • Não seja eu tão cobarde, Senhor,
  • que deseje a tua misericórdia
  • no meu triunfo,
  • mas apertar a tua mão
  • no meu fracasso!

As Coisas Transitórias

  • Irmão,
  • nada é eterno, nada sobrevive.
  • Recorda isto, e alegra-te.
  • A nossa vida
  • não é só a carga dos anos.
  • A nossa vereda
  • não é só o caminho interminável.
  • Nenhum poeta tem o dever
  • de cantar a antiga canção.
  • A flor murcha e morre;
  • mas aquele que a leva
  • não deve chorá-la sempre...
  • Irmão, recorda isto, e alegra-te.
  • Chegará um silêncio absoluto,
  • e, então, a música será perfeita.
  • A vida inclinar-se-á ao poente
  • para afogar-se em sombras doiradas.
  • O amor há-de ser chamado do seu jogo
  • para beber o sofrimento
  • e subir ao céu das lágrimas ...
  • Irmão, recorda isto, e alegra-te.
  • Apanhemos, no ar, as nossas flores,
  • não no-las arrebate o vento que passa.
  • Arde-nos o sangue e brilham nossos olhos
  • roubando beijos que murchariam
  • se os esquecêssemos.
  • É ânsia a nossa vida
  • e força o nosso desejo,
  • porque o tempo toca a finados.
  • Irmão, recorda isto, e alegra-te.
  • Não podemos, num momento, abraçar as coisas,
  • parti-las e atirá-las ao chão.
  • Passam rápidas as horas,
  • com os sonhos debaixo do manto.
  • A vida, infindável para o trabalho
  • e para o fastio,
  • dá-nos apenas um dia para o amor.
  • Irmão, recorda isto, e alegra-te.
  • Sabe-nos bem a beleza
  • porque a sua dança volúvel
  • é o ritmo das nossas vidas.
  • Gostamos da sabedoria
  • porque não temos sempre de a acabar.
  • No eterno tudo está feito e concluído,
  • mas as flores da ilusão terrena
  • são eternamente frescas,
  • por causa da morte.
  • Irmão, recorda isto, e alegra-te.

Lisa Zigue

É da opinião de que nem tudo está perdido... É necessário um olhar para lá da linha do horizonte e passar as mensagens certas..
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