sete horas

toda história é feita de parênteses (e muitos)

Luiz Menezes

Publicitário e (quase) escritor. Apaixonado por gatos, astrologia e jogos de tabuleiro. Cantor de karaokê nas horas vagas.

Amor pós-moderno

Eu ainda gosto dele como se fosse ontem. Ou melhor, como se fosse aquela quarta-feira de verão, quando nos conhecemos.


Eu me lembro daquele sorriso envergonhado, do rubor subindo às bochechas e do abraço desajeitado - e, mesmo assim, me senti, ali, completo. Por um segundo, me senti inteiro, pronto. Não me lembro de ter sentido algo semelhante antes; e pode ser por isso que agora saiba que amores vêm e vão, em ciclos arrastados, dolorosos e encobertos - enquanto pessoas entram e saem. Tentei te explicar entre cada xícara de café como eu queria que você ficasse. Tentei arremessar uma boia e te resgatar deste seu próprio mar em que você insistia em se afogar, cantarolando calmamente poesias sobre a morte.

Mas o amor não acontece simultaneamente para ambas as partes.

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Somos máquinas tristes, des-reguladas, cheias de parafusos frouxos e ferrugem. Estamos sob nossa própria fuligem, berrando entre engrenagens por ajuda, em prantos. E, naquele dia, eu percebi que minha única salvação era você.

Vivíamos - e ainda vivemos - em tempos diferentes; no mesmo relógio, nossos ponteiros resolveram correr sem nunca se encontrar; quebrados - os ponteiros; quebrados - nós dois. Colocar-nos na mesma frase me soa impossível - colocar-nos no mesmo texto me soa esperançoso.

Ando, porque quero te encontrar. Busquei suas qualidades e seus livros de filosofia em muitos outros olhos verdes - nenhum me serviu. Nenhum me colocou na tomada, apertou os parafusos, ligou os botoẽs. Ando, porque quero vida. Ando, porque só eu mesmo posso me salvar.

E jogar este tipo de responsabilidade nas costas de alguém, sem manual de instruções ou nenhuma mãozinha, é uma tarefa e tanta - até porque as expectativas abarrotadas em finais felizes, casas de praia e um casal de filhos desmoronam a cada adeus. Adeus. Adeus.

A vida é uma máquina de despedidas; e, enquanto sinto em minhas veias o sangue afinar e minhas horas diminuírem, juntos as mãos em súplica por mais um pedido.

Eu só peço ao tempo uma chance de ter você.


Luiz Menezes

Publicitário e (quase) escritor. Apaixonado por gatos, astrologia e jogos de tabuleiro. Cantor de karaokê nas horas vagas..
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