sexo com pipoca

sexualidade e erotismo no cinema

Talita Aquino

Sempre que posso tento jornalistar um pouco sobre cinema. E sexualidade é o meu fetiche. Misturemos prazeres então.

amor pintado de cinza

Tom Ford conta as desventuras de um amor perdido em A single Man. Mostra a naturalidade dos relacionamentos homossexuais, pouco vista no cinema, com delicadeza e belíssimos tons.


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Don't know why There's no sun up in the sky Stormy weather Since my man and I ain't together Keeps raining all of the time* (Stormy Weather – Etta James)

Para ler ouvindo Etta James:

É difícil encontrar razão para viver quando se perde o ser amado. Parece impossível olhar o mundo ao redor e identificar suas cores, reconhecer a beleza e sorrir de volta. Tudo fica cinza, e cada objeto tocado pelo amante que se foi ativa uma memória ainda cheia de vida, mas dolorosa.

A Single Man [2009] (Direito de Amar, na versão em português) conta essa história. Maravilhosamente interpretado por Colin Firth, indicado ao Oscar de melhor ator pela atuação no longa, e ganhador da estatueta por The King’s Speech (O discurso do rei) em 2011, o filme acompanha o dia do professor de inglês George Falconer, que seria igual a todos os outros se não estivesse destinado a ser seu último.

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Disposto a se despedir da vida após a morte de seu companheiro, com quem viveu por mais de 16 anos, Falconer é atormentado por pesadelos mórbidos e arquiteta a própria morte nos mínimos detalhes, como bom londrino que é. Mas, talvez pela presença e urgência do fim, o professor é surpreendido por lembranças imortalizadas nos cantos da casa, em eventos rotineiros, em flertes descompromissados. Falconer acaba vivendo encontros de ‘luminosidade’ ao longo do dia.

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As nuances no humor da personagem são demonstradas através dos jogos de luz, variando entre cores vibrantes e os azuis cinzentos. O diretor e também co-roteirista Tom Ford (que provou ser bom não somente como estilista) parece equilibrar o clima da Los Angeles de 62 (atormentada com a guerra fria, os ataques nucleares e os comunistas e ainda centralizada na tradicional família norte-americana e sua juventude crítica em formação) com as individualidades sentimentais das pessoas. O protagonista chega a fazer um discurso sobre o medo que assombrava a todos e que ele poderia estar direcionado aos nazistas ou a morrer velho e sozinho, atingindo uma dimensão crônica e não direcionada.

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O filme considera que os homossexuais são uma minoria invisível, não em números, mas por conseguir passar despercebida pela sociedade. Consegue camuflar-se e esgueirar por todas as instâncias sociais sem ser facilmente reconhecida e apontada. Esse comportamento aparentemente livre causa um medo mais profundo na maioria dominante, que se sente frequentemente espreitada, incapaz de levantar o dedo e acusar o desconhecido de algo que somente ele pode dar como fato. A ameaça de uma minoria invisível é a impossibilidade de torná-la concreta e, portanto, criar meios para destruí-la.

O mais admirável em A single man é unir, não forçosamente, mas com uma simplicidade inebriante, todas as informações possíveis para transmitir o sentimento de Falconer. Esse sentimento não é só dele, é universal. E Ford consegue não deixar de lado o contexto histórico, social e cultural, mas diminuí-los frente à sentimentalidade de seus personagens.

Poucos filmes tratam os relacionamentos homossexuais sem estereotipá-los ou ao menos da mesma forma que os heterossexuais. Assistir A single man faz perceber como não há diferença entre um e outro. Assim como em qualquer conto de fadas, ou drama romântico ao estilo Romeu e Julieta, perder o grande amor faz os dias ficarem cinza para qualquer um. É uma característica humana. Como defendido no longa, enquanto estamos fadados a viver fechados em nossos próprios corpos, a única coisa que vale a pena são os momentos de real conexão com outro ser humano. Onde há vida e cor.

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E mais: Julienne Moore como Charley está divina. A trilha sonora é uma delícia. Ótimos diálogos. E homens e mulheres maravilhosos.

* Não sei por que não está fazendo sol Tempo de tempestade desde que meu homem e eu não estamos juntos Continua chovendo o tempo todo

Assista ao trailer legendado:


Talita Aquino

Sempre que posso tento jornalistar um pouco sobre cinema. E sexualidade é o meu fetiche. Misturemos prazeres então..
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