sexo com pipoca

sexualidade e erotismo no cinema

Talita Aquino

Sempre que posso tento jornalistar um pouco sobre cinema. E sexualidade é o meu fetiche. Misturemos prazeres então.

pecado irreversível

Em Savage Grace [2007], mãe e filho constroem a própria cova em relações de dependência, obsessão, e incestualidade.


savage_grace.jpg

“A virtude que tanto alardeais não serve para nada deste mundo e por muito que a exibais ninguém vos dará um copo de água por ela.” (Justine, Marquês de Sade)

Para ser lida, preferencialmente, após ver o filme. Ouvindo:

O relacionamento sexual entre mãe e filho é um dos tabus, se não O, mais difícil de ser discutido, entendido e, acredito que principalmente na sociedade ocidental contemporânea, o mais longe de aceitação dentro do imaginário coletivo.

Savage Grace [2007] busca entender – longe da imparcialidade plena e objetividade científica – o interior dessa relação tão abominada. Ele é capaz de nos chocar mesmo quando todas as cartas, dicas espalhadas pelo filme, já prenunciavam o estridente clímax vergonhoso, a catástrofe.

A primeira voz que ouvimos no filme é a de Tony [Eddie Redmayne] que está contando sobre sua mãe e seu pai, e como a união dos dois: calor e frio, deu origem a ele. O espectador é o psicanalista, é o leitor de uma carta talvez nunca entregue. Observa de tão longe um fato horripilante transformado em ficção. Como se o pequeno Tony, do céu ou do inferno, justificasse seu crime.

63526_dikaya-graciya_or_savage-grace_1600x1200_(www.GdeFon.ru) (1).jpg

O diretor Tom Kalin (falando sobre sexualidade e crime também em Swoon de 1992), tenta humanizar a todos os outros personagens (não apenas seu narrador), e nessa tentativa de abraçar o mundo e de naturaliza-los todos, nuances de caráter se perdem e as atuações não conseguem transcender. Juliene Moore está encantadora como Barbara Baekeland, esposa do herdeiro da baquelita (espécie de plástico inventado pelo bisavô de Tony e que enriqueceu a família), mas não consegue criar totalmente a verossimilhança para sua personagem. Já Eddie Redmayne realiza um trabalho justo com seu personagem e consegue enganar e permanecer incompreensível.

Filho

Tony escrevia ao contrário para que ninguém pudesse ler seus pensamentos. Ele divaga sobre isso, ou fala a verdade, segundos antes de esfaquear a própria mãe. Acusa-a de também escrever ao contrário – algo que ela diz não saber do que se trata. Mas ele a lembra de um dia, anos atrás, num dos deliciosos passeios pelas ruas de Paris quando ele ainda era uma criança, e que a contou sobre como Da Vinci fazia isso, e que para desvendar o mistério bastava ler através do espelho.

63520_dikaya-graciya_or_savage-grace_1600x1200_(www.GdeFon.ru).jpg

Destinado a cuidar e se responsabilizar eternamente pela mãe, o jovem Tony se ressente com a ausência do pai que se divorciou de Barbara para viver com Blanca [Elena Anaya], uma espanhola introduzida à família como namorada de Tony. Preso à mãe o garoto ocupa o lugar do pai e começa a agir como ele. A narração do filme parece toda ser feita para Brooks [Stephen Dillane], em cartas que talvez ele nunca tenha lido, talvez escritas na prisão após o crime. Em uma dessas narrações, Tony conta ao pai sobre o sumiço da coleira de Giotto, o cão da família quando ainda moravam na Itália. Ele diz que não seria mais capaz de dormir enquanto não achasse a coleira. Ela está presente em vários momentos do filme e antes de matar Barbara, Tony pergunta onde ela a teria escondido. Barbara diz que aquilo era um delírio, que não tinha escondido a coleira e que devia ter sido perdida no caminho a Londres.

Mãe

Barbara adorava programar diversos encontros onde pudesse se inserir na alta sociedade, o círculo social de onde provinha seu marido, e apresentava-se como interessada nas artes, na modernidade, na polêmica. Sua sensualidade causava ao mesmo tempo desejo e repulsa. Vinda da classe média e atriz antes de se casar, encontrava na sedução uma arma poderosa para a barganha. Porém, embaraçava o próprio marido ao tentar obrigar Tony, uma criança, a ler um trecho do livro Justine, de Sade, para os convidados.

63528_dikaya-graciya_or_savage-grace_1600x1200_(www.GdeFon.ru).jpg

Constrangia mais uma vez o marido ao entrar no carro do primeiro que passasse na rua e pedir que lhe pagasse uma bebida, mediante os olhares risonhos dos seus amigos milionários. E de certa forma o agradou quando gritou misturando idiomas entre as frases, no saguão de um aeroporto, que ele podia sim transar com a jovem espanhola, mas jamais abandoná-la.

E se ao transar com Brooks, Barbara permanecia muda, quando transou com o filho, alegando tentar convertê-lo à heterossexualidade, ela gemeu e gozou, e o fez gozar com suas mãos, num gesto de oferta como quando ele ainda era bebê e ela oferecia o peito. Ou como após tentar o suicídio (como o pai) ela ofereceu os punhos costurados para que ele limpasse a ferida.

3673_10_screenshot.png

A história de Tony, o vapor que surge do contato entre o frio e o calor, começa em Nova Iorque – 1946, culmina com o assassinato da mãe em Londres – 1972, e termina com sua morte (suicídio com um saco de plástico na cabeça, após voltar para a prisão por esfaquear a avó) em Rikers Island – 1981. Segundo declaração de Sam Green (amante de Barbara e interpretado no filme por Hugh Dancy), muito da história contada no filme não aconteceu, incluindo seu relacionamento com Tony, e talvez a relação incestuosa tenha sido uma mentira contada por Barbara para, mais uma vez, chocar a sociedade.

tmb_4270_480.jpg

Ver o filme alheio ao fato de que era baseado em fatos reais, possibilitou analisar a proposta fílmica na abordagem do incesto mãe-filho. E acredito que Tom Kalin fez um trabalho memorável, principalmente em relação à personagem Tony, ao sugerir, afirmar e opinar a incestualidade. Que embora reproduza a ideia dramática do Édipo, onde todos morrem como uma espécie de castigo, permite vislumbrar um pouco mais da natureza humana e das condições sociais que juntas criam um complexo tão profundo capaz de levar a morte.

Se pararmos pra pensar, ainda é tabu discutir incesto. Ainda mais tabu discutir “O” incesto.

Assista ao trailer legendado:

Indicação: La Luna [1979], de Bernardo Bertolucci.


Talita Aquino

Sempre que posso tento jornalistar um pouco sobre cinema. E sexualidade é o meu fetiche. Misturemos prazeres então..
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/// @destaque, @obvious //Talita Aquino