and as your last breath begins
you find your demon's your best friend
and we all get it in
the end* [Scott Matthew – In the end]
Nova Iorque não poderia estar mais sensível, se não pós 11 de setembro. Costumeiramente chamada de “a cidade da liberdade”, a cidade vislumbra sua fragilidade após a queda das torres gêmeas, e conseqüentemente, de alguns valores e verdades da sociedade norte-americana.
Shortbus [2006] do diretor John Cameron Mitchell [Hedwig and the Angry Inch - 2001], tem como plano de fundo a plasticidade novaiorquina, muito bem representada já na primeira sequência do filme. Prédios coloridos criados digitalmente são envolvidos pela deliciosa Is you is or is you ain’t my Baby? na voz de Anita O’day. A Estátua da Liberdade aparece em recortes: boca, mãos, pés, olhos, cavidades e superfícies fálicas...sexualizada.
Mas o que seria Shortbus? O nome é baseado nos famosos ônibus escolares americanos. Na frase de um personagem, enquanto aquele é o grande ônibus amarelo, o clube underground seria o pequeno. Shortbus é o lugar onde estão juntos os dotados e os desajeitados, que buscam, tão além de sexo, uma identidade. São pessoas diferentes, com anseios distintos, mas que se apropriam daquele espaço como uma válvula de escape.
Ainda na introdução a câmera passeia pelos apartamentos, tão irreais em sua digitalidade. Dentro dos cômodos os personagens são apresentados sem cerimônias, no que poderíamos chamar de seus “momentos mais íntimos”. As cenas são de chocar os olhos mais adestrados. A nudez, o sexo, o sado-masoquismo. A sexualidade nua e crua, no seu sentido mais carnal. A aceleração do ritmo da música é também a aceleração do ritmo dos corpos, dos suspiros, dos gritos, do esforço. Em uma dinâmica que termina no gozo obtido no extremo limiar entre o prazer e a dor. Percebida no choro da personagem James [interpretado por Paul Dawson] - de longe observado por um “vizinho”, do “easy, easy” (devagar, devagar) da personagem Sophia [Sook-yie Lee] e da conversa entre a Dominatrix Severin [Lindsay Beamish] e seu cliente “Você se sente triste depois? – Sim. Porque o tempo não parou e eu não estava sozinha”.
Mitchell já expõe aí seu jogo, mostra suas cartas para que o espectador decida jogar ou não. Mas, talvez o diretor tenha realizado um grande blefe... e porquê?
A partir daí o filme irá desenvolver sua trama e envolver ainda mais as personagens. Saberemos que James é homossexual e que namora Jamie [PJ De Boy] há alguns anos, e que os dois não têm um relacionamento tão perfeito quanto aparentam. Sophia, que protagoniza uma cena de sexo invejável é uma terapeuta sexual (que prefere ser chamada de “conselheira de casais”) e nunca teve um orgasmo. E Severin, nunca conseguiu ter um relacionamento duradouro ou pelo menos importante.
Neste ponto saímos do âmbito aprisionador do sexo e passamos a discutir sexualidade. E John Cameron Mitchell vira o jogo! Shortbus não é um filme de pornografia e nem quer falar exclusivamente de sexo. Shortbus é uma celebração, um vislumbrar e um naturalizar a sexualidade!
As frustrações, os desejos, a inadequação a suas próprias vidas leva as personagens ao “bar” chamado Shortbus, cuja figura central é certamente Justin Bond, o/a recepcionista.
Um lugar onde não é preciso fingir (a não ser que queira), dissimular ou evitar. O ambiente propício para realizar desejos, fugir do mundo, encontrar amigos e, o mais importante, encontrar-se. Entre os cômodos é possível ver filmes, ouvir músicas, brincar, usar drogas, conversar e, porque não, transar. Justin Bond explica bem: “É como na década de 60, mas com menos esperança!”.
Esse cenário é envolto em uma naturalidade nas relações entre as pessoas que parece ser inacreditável existir uma realidade assim. Nesse momento o ator Alan Mandell, que interpreta o ex-prefeito de Nova Iorque, surge com o mais belo diálogo do filme e apresenta o termo (crucial à película) “permeabilidade”.
As tentativas de resolução dos problemas de cada personagem são cada vez mais frustradas e o espectador consegue ir percebendo que todos estão ligados por um problema único: a incapacidade de sentir. James nunca se deixou ser penetrado, Sophia considera o orgasmo uma mentira, Severin procura um relacionamento estável. Todos vão se afundando em seus próprios problemas e encontrando a semelhança de suas dores nos outros. Na fala de Severin “É difícil não sentir nada na vida, não é?”.
Shortbus é uma celebração, como já disse antes. À vida, à sexualidade, ao amor. É o lugar onde todos vão encontrar não a solução de seus problemas, mas algumas portas ou janelas – algumas conexões e alguns curtos circuitos. Um lugar onde se aprende a ser permeável – deixando entrar o novo e o velho. A charmosa e desejável luz de velas quando todo o resto parece estar escuro.
* (e como o seu último suspiro começa você descobrirá que o seu demônio é o seu melhor amigo e todos nós buscaremos o fim)
Comentários
Os comentários a este artigo são da exclusiva responsabilidade dos seus autores e não veiculam a opinião do autor deste site sobre as matérias em questão.
Maitê Maronhas
Fiquei com vontade de ver
Deixe o seu comentário
O e-mail é obrigatório mas não será mostrado no site ou cedido a terceiros. Seja cordial e educado. Comentários ofensivos ou pouco dignos não serão publicados.