sexo com pipoca

sexualidade e erotismo no cinema

Talita Aquino

Sempre que posso tento jornalistar um pouco sobre cinema. E sexualidade é o meu fetiche. Misturemos prazeres então.

um ser icógnito?

Quatro séculos de comportamento masculino e feminino no filme Orlando [1992], roteirizado e dirigido por Sally Potter. Construção e desconstrução dos gêneros.


"Do not fade"

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O que é ser mulher?... (e várias reticências podiam se encaixar bem aqui...)

É ter um útero? Não ter controle algum no fato de que ele, ansioso do jeito que é, espera por um feto e se cobre todo de sangue, uma vez por mês, para recebê-lo? E que após isso, caso as visitas não venham, expele sangue pela porta de entrada?

Ou seria um cromossomo X a mais? Possuir um 'órgão' cheio de terminações nervosas que aparentemente 'só' serve para proporcionar prazer? São nossas roupas, nossos cabelos e maquiagem no rosto? Seria a servilidade, a fragilidade, a sensibilidade, a doçura, a fraqueza, a loucura, o sexto sentido? Ou os orgasmos múltiplos?

É o que diz minha família? Meus mestres? Meu país? Os donos do mundo?

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"Do not growl old, Orlando"

O que vemos no filme Orlando não é uma simples transformação de um homem em uma mulher, mas a construção do conhecimento de si mesmo. Já nos primeiros minutos de filme a atriz Tilda Swinton confronta a câmera e empodera-se da narrativa efetuada em terceira pessoa. Não admite que outros contem sua história já antes de todas as peripécias que viveria exigirem dela exatamente isso.

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Após recitar um poema um tanto inadequado para a rainha Elizabeth I (interpretada por Quentin Crisp), recebe dela a oferta de um acordo. A parte de Orlando consistia simplesmente em nunca envelhecer.

Através dos séculos a personagem irá se deparar com o amor e suas traições.Também verá de perto os jogos políticos e as exigências sociais. Experimentará o prazer e o sentimento de liberdade. Renascerá mil vezes em sua existência enquanto homem, enquanto mulher e já como um ser desgarrado destas convenções.

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Sally Potter consegue transmitir, em figurinos maravilhosos, fotografia original e excelente, magistral e ousada direção, a impressão de que homem e mulher não podem ser usados para definir naturalmente duas entidades. Orlando ainda está ali, se apoderando da mise-en-scène de sua própria vida, desafiando a câmera e a nós, telespectadores.

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Quanto demora para se tornar uma mulher? Talvez Orlando tivesse se perguntado ao longo de seus 400 anos de vida. Talvez Virginia Woolf tenha se perguntado ao escrever o livro na década de 20. Talvez Sally Potter, ao filmar a obra literária.

E quanto tempo para se tornar um homem? ... Talvez você se pergunte...

Eu me pergunto se nos tornamos mesmo e se essa divisão/definição realmente seja necessária...


Talita Aquino

Sempre que posso tento jornalistar um pouco sobre cinema. E sexualidade é o meu fetiche. Misturemos prazeres então..
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