sexo com pipoca

sexualidade e erotismo no cinema

Talita Aquino

Sempre que posso tento jornalistar um pouco sobre cinema. E sexualidade é o meu fetiche. Misturemos prazeres então.

a whole life in a day

O filme As Horas sugere, com doces viagens temporais, a condição feminina e a tragédia humana. Puramente representada, amplamente interpretada, escorrendo pelos dedos, cientes ou não, merecidos ou não, usurpados ou não, de Virgina Woolf.


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Da liquidez da água ou da viscosidade da clara do ovo, o tempo escorre em As Horas (2002), alterando sua materialidade enquanto atravessa não somente os corpos, mas a própria essência de cada uma das personagens do filme. Movido pela correnteza ou pela gravidade, ele se esgueira nas paredes dos cômodos, nas tramas dos tecidos, nas pétalas murchas, fios de cabelo, juncos dos rostos. Parece acelerar compassado e logo em seguida diminuir o passo, tornar-se estático. Pacificamente escorrendo pela tigela de porcelana, o tempo oprime a todos que, sem escolhas, esperam. Ou cansam de esperar.

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No filme do diretor Stephen Daldry, inspirado no livro homônimo de Michael Cunninghan, percorremos décadas em apenas um dia. Virginia Woolf está em 1923, instruída pelos médicos e pelo marido a tentar se reestabelecer em Richmond (após tentar por duas vezes o suicídio e por outros "episódios de insanidade" em Londres). Ela escolhe a pena adequada e se entrega ao mundo de Clarissa Dalloway. Escrevendo aquele que seria seu último livro e um dos mais conhecidos. 28 anos depois, Laura Brown acorda nos subúrbios de Los Angeles e permanece na cama lendo Mrs. Dalloway. É o dia do aniversário do marido. Um filho brinca na sala e ela sente o outro na barriga. Ela descobre que Clarissa decide ir comprar as flores ela mesma. E assim faz Clarissa Vaughan, em Nova York, em pleno século XXI.

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As figuras femininas vão delineando a situação da mulher ao longo do século XX e encontrando suas prisões e tabus, personificados pela obrigatoriedade da devoção à família - que procura cuidar e demonstrar amor, ao mesmo tempo que cerceia e limita -, pela sexualidade conturbada e contida, a falta de independência e a submissão a uma ordem social repressora.

Essa condição é refletida no estado psíquico dessas personagens que, se com Virginia e Laura beira uma depressão suicida, com Clarissa a nostalgia da juventude faz com que permaneça presa ao passado, sustentando no presente a aparência calma e resolvida, mas vivendo em função de suas festas e daqueles a sua volta - sua companheira Sally, sua filha Julia e o amor da juventude, Richard. Clarissa abdica a si mesma para viver dedicada ao outro. Laura e Virginia não podem viver dessa forma, não recusam a si mesmas.

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As Horas procura se aprofundar na humanidade de suas personagens, as pulsões de morte, os relacionamentos afetivos e as batalhas infinitas travadas na caixa preta da mente. A sexualidade é tratada tanto como um lugar de onde emergem os dramas psicológicos quanto aquele onde eles são refletidos. Desde o salto para a morte de Virginia, tal qual Ofelia, ou da fuga de Laura de sua realidade pré-fabricada, ou da construção fantasiosa criada por Clarissa; as exigências e pressões do mundo externo e a forma de conceber a condição feminina são o palco de uma grande espera e a própria consistência do correr do tempo.


Talita Aquino

Sempre que posso tento jornalistar um pouco sobre cinema. E sexualidade é o meu fetiche. Misturemos prazeres então..
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