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compartilhar como cura ao tinnitus cultural

Fernando Miranda

Um cara comum, que adora coisas incomuns. Uma extensão do blog Ruído Pop! e uma externação da paixão pelo Obvious e pelo compartilhamento cultural.

Marte e a Vez de Outubro

Neste tempo em que cento e quarenta caracteres transformam realidades, Bradbury consegue ilustrar algo profundamente aterrador, sincero, onírico ou subjetivo em poucas linhas, num veículo que para os nativos digitais pode parecer algo abarrotado de grandes discursos entediantes: o livro.


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Em uma palestra sobre Literatura Fantástica, ouvi dizer que a Ficção-Científica é a mãe de toda a literatura, por conter em seu arcabouço todos os elementos das outras ficções. Meros momentos que perpassam um gênero que fala de gênese e de um futuro cada vez mais especulatório, aterrador e inspirador. Eu comecei a me aventurar no mundo da leitura com os heróis Marvel e DC, as Coleções Vagalume da editora Ática, o deslumbramento. Então vieram Sir Conan Doyle, Augusto dos Anjos e Edgar Allan Poe, o estranhamento. A perplexidade diante daquela torção de palavras inebriante que nos leva por caminhos de horror e de mistério.

Neil Gaiman foi como entrei em contato com o trabalho de Ray Bradbury. Já admirava Gaiman e li muito mais de seu trabalho literário do que as histórias em quadrinhos que o tornaram tão famoso. Quem era este ídolo do meu ídolo? Na coletânea Coisas Frágeis, Gaiman dedica o conto A Vez De Outubro à Bradbury, e me daria uma pista de qual seria a tônica de seu trabalho: paisagens inóspitas, profundos detalhes sociológicos da America numa era de extremos, e os anseios do cotidiano sob um olhar pescrutante e minucioso.

ray 1.jpg O efusivo e bem-humorado Ray Bradbury, aos 92 anos

Autor de doze romances, mais de cinquenta coleções de contos e oito livros de poesia, Ray Bradbury, assim como Douglas Adams, Carl Sagan e alguns poucos iluminados, trouxeram aquilo que havia de mais fascinante e curioso na ciência para dentro dos nossos lares, sempre numa linguagem inteligível e cativante. Escreveu também utilizando outros gêneros literários, mas fictício-científico foi que o projetou para a fama. As homenagens são várias: de estrela na calçada da fama de Hollywood ao nome da enorme cratera no solo lunar. Chamada Dandellion, é visível a olho-nu daqui da Terra, tem o nome herdado de um de seus romances.

Fahrenheit.451.Ray_.Bradbury.jpg Capa americana de Fahrenheit 451

Bradbury decidiu se tornar escritor aos 12 anos, após um enigmático encontro com um ilusionista chamado Mr. Electrico. Largou os estudos por um tempo para ganhar dinheiro vendendo jornal nas ruas de Los Angeles. Dizia não acreditar em universidades e educação formal: “Acredito em bibliotecas. Quando entrei para a universidade durante a Grande Depressão, não tinhamos dinheiro. Não podia frequentar a escola. Então, eu afinava minha leitura e educação indo à biblioteca três dias por semana durante dez anos.”

Seu primeiro livro, Dark Carnival, foi lançado em 1947. Vários de seus contos e livros foram adaptados para o cinema. O mais célebre, Farenheit 451, foi realizado pelo aclamado cineasta François Truffaut. O escritor está na casa dos 90 anos de idade, ainda continua extremamente atual, sendo considerado pelo jornal britânico Guardian que continua vital para que lê seja lá o que for, citando Farenheit 451 como um dos "top cinco livros que te fazem pensar", numa lista formulada e enviada por leitores do diário.

Fahrenheit-451-007.jpg Cena da adaptação para o cinema de Fahrenheit 451, por Truffaut

As Crônicas Marcianas em encadernação barata, papel jornal, pocket-book, foi o agente catalizador. Histórias fantásticas, de uma humanidade que havia abandonado o planeta, este que magoamos tanto à ponto não suportar mais nossa habitação, tornando-se hostil e rabugento. Veio até mim Farenheit 451, e então A Cidade Inteira Dorme (1). O primeiro parágrafo do conto “As Frutas No Fundo Da Fruteira” – que não é um conto de ficção científica – é como um microconto em si. Caso fosse lido sozinho, não necessitariamos de mais nada para chocar nossas mentes preguiçosas, tão acostumas ao trivial:

William Acton ficou de pé. O relógio em cima da lareira bateu meia-noite. Olhou para os dedos e olhou para sala grande em torno de si e olhou para o homem deitado no chão.William Acton, cujo os dedos haviam apertado as teclas da máquina de escrever e feito amor e fritado presunto e ovos para desjejuns matutinos, agora cometera um assassinato com aqueles mesmos dez dedos cobertos de pequenas espirais digitais. (pág. 140, Ed.Globo)

Sua economia é algo que sempre me espanta e inspira. Em seus contos, nos faz de personagem com seu estilo fino de envolver: nos coloca como observadores de histórias comuns, mas de um viés absurdo. Ou que são improváveis e animalescas de forma tão ordinária, que parecem altamente prováveis de acontecer, como no conto “O Homem Em Chamas” do mesmo livro. Há sempre uma maravilhosa culpa em ler e perceber que algo está “errado”, e que você não descobre exatamente o que é. Sua literatura mexe com o imaginário, nos mostrando que existem formas mais originais e deliciosas de contar histórias.

Notas: 1 - Títulos traduzidos para o português brasileiro.


Fernando Miranda

Um cara comum, que adora coisas incomuns. Uma extensão do blog Ruído Pop! e uma externação da paixão pelo Obvious e pelo compartilhamento cultural..
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