shine on you crazy diamond...

"Nobody knows where you are, how near or how far..."

Laís Locatelli

De alma cigana, de curiosidade espontanea...Uma leitora incansável que crê no ser humano: somos bons e maus. Isso é ser completo.

Reprodução sem reprodutores. E se fosse verdade?


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Imagine um bebê dentro de uma incubadora. Bem, algo como uma incubadora, mas o bebê está nadando lá dentro. Não, nadando não: se movendo, dormindo, crescendo. Não é bem água, olhando de pertinho se pode ver: é líquido amniótico. E o bercinho não tem colchão! Não, definitivamente não é um colchão, bem parece uma placenta... A mãe está do lado, quem sabe o pai também, ou quem sabe esteja o pai e a mãe nem exista no mundo real. Está lá também o médico e a equipe que dá perfeitas condições para uma gestação segura: nutrientes, oxigênio, temperatura, conforto...

Imagina que o parto não tenha nem dor para a mãe, nem trauma para o bebê: ele não é expulso de um corpo colapsando em stress e dor, ele simplesmente está pronto e abre os olhos, fora da água, acompanhado pelos cuidados dos seus gerados - mãe, pai, mãe ou pai, médico e equipe. Ele abre os olhos grandes... E uma vida começa.

E se fosse verdade?

Se fosse verdade, Henri Atlan teria sido mais que médico, biólogo, filósofo, investigador e escritor. Teria sido um criador de possíveis realidades. Recordaríamos do livro dele, publicado em 2005, na França, um livro que teve o efeito de uma bomba: “L’Utérus Artificiel”.

Lá dizia que o útero artificial era a possibilidade de desenvolver um bebê desde a fecundação até o nascimento fora do corpo de uma mulher. Era um experimento complexo, mas Atlan já havia afirmado: não existia uma impossibilidade biológica fundamental mas muitas questões éticas viriam à tona porque se tratava de tocar na relação mãe e filho.

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Poderia ser uma história narrada no passado. Mas, ainda, não é. Ainda não é realidade o útero artificial. Uma das principais razões é a nossa própria história. Ficamos todos traumatizados com as cenas que assistimos em inúmeros filmes e documentários que mostravam a crueldade que eram realizadas as práticas experimentais em humanos: os nazis praticando com os prisioneiros dos campos de concentração, judeus, ciganos, homossexuais e quem mais não fosse da raça aquela que eles desejavam que sobrevivesse ao holocausto.

Hoje a ciência não trata com descaso a raça humana. Pelo contrário, trata de melhorar a vida humana. Mas encontra um muro legal e moral que foi construído na época pós nazi, decorrente do total desrespeito ao homem. São a ética e o direito as principais barreiras para utilizar material genético humano em experimentações.

A questão ultrapassa a ética médica e dá com a cara na porta da nossa cultura baseada em crenças e sexismo. A ciência evolui mais rápido que nossos preconceitos concebidos dentro do útero social. Ela encontra a crítica e a desconfiança das pessoas quando apresenta novas ideias e tecnologias. Mas, e se fosse possível para uma mulher ter um bebê sem o desconforto da gravidez e sem o risco, que sempre existe, para ambos?

Se depois da pílula anticonceptiva a mulher dispõe mais sobre o seu corpo e tem a possibilidade de ter uma liberdade nunca antes imaginada, o útero artificial, por fim, terminaria com a visão da mulher “fábrica de bebês”: que abdica ou interrompe carreira, tempo e liberdade para se dedicar a maternidade, por um questão mais física do que emocional.

Pode-se ir mais além: o amor de quem deseja ser mãe ou pai é nato: se ama filho adotado, se ama filho gerado pela barriga de aluguel, se ama filho feito em fertilização artificial. O amor, sempre está lá, fora da barriga ou dentro dela.

Se partimos do ponto de vista sexista tampouco encontramos argumentos para críticas. O sexismo usualmente costuma ter como ponto de partida o feminismo, porém, o útero artificial não esta baseado só nos direitos da mulher: um homem que desejasse ser pai poderia ser, por si só, invertendo a certeza da maternidade e afirmando a certeza da paternidade, o contrário do que hoje temos.

Podemos ver, também, com outra perspectiva: a possibilidade médica de cuidar de bebês prematuros. Um avanço imemorável na ciência que devolveriam para as mães e pais a possibilidade de verem seus filhos prematuros saudáveis e sem sequelas.

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Hoje quase ninguém mais fica impressionado quando escuta falar sobre fertilização em vitro, óvulos congelados, maternidade tardia e barriga de aluguel. Mas essas práticas já chocaram o mundo. O que isso nos revela é que o desconhecido assusta. O medo não é sinônimo de enfrentar o mau, é sinônimo de se deparar com o novo.

Se, desde a mitologia - como na "guerra dos sexos" - existe a discussão de quem possui o direito/dever/felicidade/fardo de gerar os filhos, não parece que com diálogos éticos encontraremos a solução.

Os comitês de ética – Atlan participou durante 17 anos do comitê francês – não chegam a uma conclusão. Estamos todos pendentes da autorização de testes com material genético humano para que o projeto seja viável. Se pensarmos que é realmente necessário que o mundo concorde e autorize cada experimentação cientifica, teria surgido a pílula? Possivelmente, não.

Por suposto, quando a tecnologia permitir salvar bebês super prematuros e dar à mulher a possibilidade de gerar um filho saudável fora de seu corpo ou, nas palavras do Henri, “libertar a mulher dos constrangimentos da gravidez”, o benefício será incalculável.

Libertaria, também, o homem do mistério que sempre esteve presente na filosofia: O útero como lugar enigmático. A ciência sonha desde sempre em desvendar o mistério da vida. E está a um pequeno passo de conseguir.

Termino com Luís Fernando Veríssimo: “A verdade é que a gente não faz filhos. Só faz o layout. Eles mesmos fazem a arte-final”.


Laís Locatelli

De alma cigana, de curiosidade espontanea...Uma leitora incansável que crê no ser humano: somos bons e maus. Isso é ser completo. .
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