shine on you crazy diamond...

"Nobody knows where you are, how near or how far..."

Laís Locatelli

De alma cigana, de curiosidade espontanea...Uma leitora incansável que crê no ser humano: somos bons e maus. Isso é ser completo.

“Amigos, eis uma verdade eterna: - o passado sempre tem razão”. Nelson Rodrigues

O passado como cartão de visitas: o meu, o seu e o do amor das nossas vidas.


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Nelson Rodrigues me faz recordar das minhas amigas, das amigas de verdade, que contam suas confidencias, medos, esperanças e às vezes se descabelam por algum homem maravilhoso, que, logicamente, já cometeu alguns errinhos bobos.

Talvez esse homem, maravilhoso, já tenha pulado de mulher em mulher por alguns anos: mas só porque buscava o amor da vida dele. Quem sabe abandonou ou não ligou para algum filho, mas só porque a mãe – alguma ex, quase sempre apresentada como a maluca do bairro - tinha um plano para engatá-lo. Ainda, quem sabe, não se identificou com nenhum trabalho, carreira ou responsabilidade na vida e, um dia, ele tem certeza, encontrará algo que o faça sentir completo - e está a espera dessa oportunidade única. Só se por acaso.

Amigas, eis uma verdade eterna: - o passado sempre tem razão. Esse homem gentil, lindo e maravilhoso que apareceu, por coincidência (o amor sem coincidências, não é amor), é o que você já leu no passado dele. Ele é aquilo tudo e possivelmente muito mais do que você imagina: muitos mais errinhos aqui, ali e acolá.

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Felizmente para uns, infelizmente para outros, como escreveu Oscar Wilde, “nenhum homem é suficientemente rico para comprar o seu passado”. O passado está lá, imóvel, concretizado, imutável como as digitais em um registro policial: não se pode apagar, não se pode modificar. Quando muito se pode omitir. Por algum tempo.

Já escutei amigas, com incrível criatividade, dando desculpas em nome desse homem tão espetacular pelos errinhos que ele andava cometendo naquele presente, quando estava junto com ela, namorando, noivo ou casado. Porque desculpas, sempre há, para todos os deslizes, erros e enganos. Como se assumir uma escolha não muito acertada fosse motivo de vergonha. Quem sabe um ego arranhado por não se reconhecer como a mulher da vida dele, aquela mulher espetacular, sensacional e irreal.

Continuo com Nelson: “Qualquer um de nós já amou errado, já odiou errado”. Olhando com certa seriedade para minhas amigas, que se ocupam em sofrer pelo engano e em se justificarem por terem se enganado, eu penso: não há nada de errado em errar. Algumas vezes já relutei e até recorri a minha imaginação para encontrar lógica em coisas que não tinham nem sentido nenhum e nem bom senso. Já amei errado e já odiei errado também. O efeito disso, a longo prazo, são dois extremos: o amor errado se transforma em qualquer coisa amarga e o ódio errado se transforma em qualquer coisa doce.

Voltando ao passado, posso ir um pouco mais além com meu querido Mario Quintana: “O passado não reconhece o seu lugar: está sempre presente”. Quiçá porque o passado forma parte do presente não só como lembranças... O passado é a gente mesmo. Explico: chego em uma festa e uma amiga me apresenta a alguém. Como? “Essa é a minha amiga Tal que foi minha colega na faculdade Tal, ela é lá da cidade Tal e trabalhou com o nosso amigo Tal”. Quem é que ela apresentou? Meu passado. Eu sou, invariavelmente, o meu passado.

O tempo é relativo, sempre afirmei. O tempo apresentado como passado-presente-futuro, de maneira linear, é somente um método para organizar e simplificar os acontecimentos. Mesmo que o tempo, passado-presente-futuro, se misture em um determinado espaço, o que posso afirmar, apresentar e garantir é o que já existe, o que já fiz, o que eu já fui. Esse é o meu certificado de garantia: O meu passado.

Me despeço, sem mais, com o grandíssimo Millôr Fernandes: “Passado: É o futuro, usado”.

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Laís Locatelli

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