shine on you crazy diamond...

"Nobody knows where you are, how near or how far..."

Laís Locatelli

De alma cigana, de curiosidade espontanea...Uma leitora incansável que crê no ser humano: somos bons e maus. Isso é ser completo.

Cinquenta tons de cinza


E.L. James é o nome da escritora de Cinquenta tons de Cinza, o livro que tomou conta das livrarias e que está vendendo milhões de cópias. Depois dele, James escreveu mais dois: Cinquenta Tons Mais Escuros e Cinquenta Tons de Liberdade - repetindo a incrível tiragem de vendas do primeiro. Eles compõem a trilogia erótica e romântica ou erótica-romantica, ou o que seja...não importa. O que importa é o que está por trás do romance: o livro como medidor social, como leitor das nossas mentes, dos nossos desejos, das nossas curiosidades....

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O enredo prende, envolve. Mas acredito que o ponto central, o x da questão, é a dominação de uma mulher por um homem, mesmo que seja entre quatro paredes e de forma consentida. Um tabu moderno veio à tona: Até que ponto hoje se aceita, dentro do conceito de normalidade, uma submissão feminina? Não tenho essa resposta. O quando se aceita é uma incógnita. Mas o quanto desperta a atenção para o assunto já se sabe: milhões de livros vendidos.

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Cinquenta tons de cinza quebrou um paradigma moderno. Tirou o sadomasoquismo do cine D e das publicações especializadas, basicamente a porno, e a apresentou como um romance. Mesmo os olhares e as críticas mais desconfiadas não conseguiram afastar a curiosidade dos leitores. Quiçá, James ensina que essa é uma prática rotineira, apenas mais uma entre as tantas para se obter prazer.

Entendo que a luta feminista vem a décadas lutando para a mulher ser respeitada, valorizada e detentora dos mesmos direitos do outro sexo. Eu estudo, pesquiso e defendo cada pequeno e grande passo legal e social das mulheres desse mundo. Mas entendo também que a realidade e a fantasia podem conviver em harmonia. Uma fantasia é um desejo, um fetiche, que traz prazer para todas as pessoas envolvidas. Se há agressão, pressão, ameaça, deixa de ser saudável e passa a ser violência: física, mental, emocional, às vezes todas elas, às vezes alguma delas. Não só violência, pode ir além e virar tortura. Pode ser, inclusive, resultado de uma patologia séria.

Cinquenta tons de cinza não trata disso. Não trata de direitos humanos, nem de direitos das mulheres, nem de política alguma. Trata do ser humano e dos seus desejos. Revela como pode ser composta uma relação em diferentes tons. Tons de cinza, tons de cores diversas. Há gosto para todos os gostos. E o olhar inóspito não afasta o desejo pulsante dentro de um quarto, dentro de uma relação saudável onde duas pessoas adultas se relacionam.

Até pouco tempo a forma como as mulheres eram conceituadas, julgadas e marcadas variavam de acordo com sua conduta sexual: ou damas ou putas (vide a releitura de Gabriela, de Jorge Amado). Ou a mulher se casava e servia o marido em casa, como um ser quase assexuado, ou o servia na rua, como se fosse uma comida fast food, uma puta.

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Hoje, quando a mulher tem a liberdade de estar onde quiser, com quem quiser, fazendo o que bem desejar, há quem se manifeste para dizer que a liberdade sexual elegida pelo casal do livro, o sadomasoquismo, é uma volta no tempo onde a mulher era submissa. Ou seja, a continuação da mulher coisa, como algo que se usa. Mas, afinal, as duas pessoas que compõe o casal se usam em busca do prazer porque é uma decisão dos dois. Se usam e se desejam, mutuamente.

Me despeço com Anastásia Steele, personagem central do livro: “Às vezes me pergunto se existe algo de errado comigo. Talvez eu gaste muito tempo na companhia de meus heróis românticos literários, e consequentemente meus ideais e expectativas são extramamente altos.”


Laís Locatelli

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