shine on you crazy diamond...

"Nobody knows where you are, how near or how far..."

Laís Locatelli

De alma cigana, de curiosidade espontanea...Uma leitora incansável que crê no ser humano: somos bons e maus. Isso é ser completo.

"Não perco a fé por constatar o óbvio: tudo é provisório, inclusive nós".

O quanto nosso desejo de ter, detener e possuir pode nos consumir e distorcer nossos sonhos? O impulso de congelar o tempo e as pessoas nos impulsiona também a materializar coisas: porque só sentir nunca é o suficiente?


Lendo a fantástica frase de Martha Medeiros (título da coluna) dei um salto triplo pra dentro de mim. Um segundo durou horas com tantas coisas que eu encontrei lá dentro. Como um flash back relâmpago, relembrei das paixões avassaladoras e da dor de não poder amarrar alguém, por dentro, começando pelos pensamentos e ir chegando até o coração.

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Quanto sofremos por tentar imobilizar as pessoas que desejamos? Muito, às vezes mais do que pensamos poder suportar. E dói. Uma dor aguda que aperta o peito, que nos dá falta de ar e de bom senso. Quem sabe até falta de juízo. Pode ser um sofrimento por antecipação de uma perda possível e pode que nem seja tão provável assim.

Quem sabe sofremos o mesmo tanto pelo apego às coisas: O desejo de ter, possuir armazenar, empilhar, colecionar...Parece-me uma completa loucura, por exemplo, passar quase uma vida toda a pagar uma casa. A nossa casa é o nosso corpo, e olha lá. Porque até nós somos provisórios. Quem sabe, logo que acabe o sacrifício de pagar a casa, a gente morra. E lá na casa ficará depositado, como um banco, um oceano de sentimentos e experiências não vividas. Estará depositado nas paredes o dinheiro das férias, das viagens, dos presentes caros, dos pequenos luxos – e dos grandes também - que privamos nós mesmos e nossos filhos.

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E a casa lá, imóvel. Possivelmente nossos filhos vão vender a casa. O que ficará de nós vai ser justamente o que não se pode tocar.

Poderia fazer uma lista de exemplos de coisas, pessoas e sentimentos que tentamos congelar no tempo para que tudo fique exatamente onde está: na nossa posse e, se possível, como nossa propriedade. E assim vamos indo, seguindo na vida com ilimitados horizontes de pretensões – também chamados “objetivos” pelos que querem positivar e justificar a idéia. Quem consegue ter a posse e a propriedade de todas as coisas que deseja, com o custo de muito stress e euforia, é um “vencedor” na vida. O tão conhecido: “aquele tem sucesso”.

No final, o que resta da nossa pretensão de imobilizar as coisas que desejamos é o resultado de imobilizarmos a nós mesmos: nos limitamos para poder “ter”.

Desejos...desejos...muito mais sacrifícios que beijos, que sorrisos, que tranquilidade, que paz de espírito, que bem estar, que simplesmente estar e viver o dia, o presente, e nos dedicarmos ao que merece nossa atenção: o afeto.

Despeço-me com a imortal Clarice Lispector: “A vida é curta, mas as emoções que podemos deixar duram uma eternidade. A vida não é de se brincar porque um belo dia se morre”.

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Laís Locatelli

De alma cigana, de curiosidade espontanea...Uma leitora incansável que crê no ser humano: somos bons e maus. Isso é ser completo. .
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