shine on you crazy diamond...

"Nobody knows where you are, how near or how far..."

Laís Locatelli

De alma cigana, de curiosidade espontanea...Uma leitora incansável que crê no ser humano: somos bons e maus. Isso é ser completo.

“A educação tem raízes amargas, mas os seus frutos são doces”. Aristóteles

Há muito tempo que se fala de um ensino disciplinar: “tem que ter disciplina”. Ou, ainda, da velha a máxima “um ensino com qualidade”. Qualidade para quem?


Lembro do meu ensino infantil em uma escola disciplinadora. Penso hoje que a finalidade era criar crianças engessadas, de fácil manuseio, alguém que não questiona, alguém que aceita, quase como preparada para ser embutida como mais uma sardinha na lata.

As lembraças daquelas aulas pesadas dadas por professoras com semblante fechado ficaram ainda mais nítidas depois de assistir "Jornada da Alma".

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Para quem gosta de psicanálise, o filme é um deleite. Trata da “jornada da alma de uma mulher que encontra sua própria capacidade de promover a cura, a sua e a de outros”. Trata do romance, da relação médico e paciente, entre Jung e de Sabina Spielrein. Ela, além de se tornar psicanalista, abre uma escola na União Soviética: a White Nursery, escola branca ou creche branca.

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A White Nursery não foi um modelo, não foi copiada. Um pecado, diria a Santa Madre Igreja. Uma perda, diria eu. Sabina construiu um espaço em que a metodologia de aprendizagem era livre. Isso mesmo, metodologia livre. As crianças podiam expressar-se artisticamente, oralmente, movimentar-se, brincar, ler, aprender música. Enfim, aprender livremente, cada uma encontrando seu método. Era um refúgio da sociedade oprimida por Stalin e do sistema disciplinador de casa. Era um espaço de descobrimento, algo mágico, encantado.

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O modelo, brilhante, que Sabina introduziu acabou tão logo começou a revolução russa. Lá vieram os soldados e o método de se ensinar futuros soldados: sentar, ler, decorar, repetir, errado, certo. Disciplina, diriam. Desse assassinato da mágica criatividade infantil salvaram-se e salvam-se poucos.

Quando comecei a dar aulas de direito, pensei: não vou massificar meus alunos. Não é justo, na minha visão de justiça. Tentei utilizar o método da White Nursery em uma universidade, adaptado a um modelo democrático: O que vocês acham? Querem? Interessa? Que nota vocês se dariam? Querem prova? Trabalho? Causou espanto.

Mais que espanto, causou desrespeito: a professora não tem método. Sim, a professora não tem método disciplinar, nem militar, nem aquele método clássico de ensardinhar alunos. O desejo de encontrar o modelo que já se conhece (e, portanto, confortável e seguro) é quase instintivo: se me ensinam a ter “disciplina” em casa, na pré-escola, na escola e na vida, vem você querer mudar tudo? Está errado! Errado é o oposto de certo, logo, não é errado, é diferente.

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O método livre impulsiona a criatividade, constrói mentes ousadas. Arma de sabedoria e segurança um filósofo que se arrisca a fazer perguntas, um pesquisador que encontra respostas, um artista que dá cor e textura ao mundo.

Causa estranheza nenhuma White Nursery se encontrar por aí. De qualquer forma, obrigada Sabina, pela sua contribuição ao mundo de fazer das pessoas, pessoas, na concepção maior da palavra.

Me despeço com Freud:“Que contraste perturbador existe entre a inteligência radiante de uma criança e a frágil mentalidade de um adulto mediano”.


Laís Locatelli

De alma cigana, de curiosidade espontanea...Uma leitora incansável que crê no ser humano: somos bons e maus. Isso é ser completo. .
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