shine on you crazy diamond...

"Nobody knows where you are, how near or how far..."

Laís Locatelli

De alma cigana, de curiosidade espontanea...Uma leitora incansável que crê no ser humano: somos bons e maus. Isso é ser completo.

“Canción de las simples cosas.”

"A microagressão se alimenta do silêncio, como os fungos do açúcar". Bilbao


Estava ontem lendo um artigo de Bilbao, a ganhadora mais jovem do prêmio Planeta (prêmio literário que acontece em Barcelona desde 1952). Tinha como título “Microagresiones”, que ela lindamente descrevia como “esses pequenos ínfimos detalhes de descuido, esses mal entendidos não resolvidos, a inveja latente, as tomadas de confiança inadequadas, as palavras intempestivas ou a defesa que não chegou”.

bilbao.jpg María Laura Espido Freire (Bilbao, 1974)

Basta começar a ler para a memória nos dar um flash back rico em detalhes. As amizades extraviadas, os desentendimentos familiares e, como não poderia deixar de ser, colocando o dedo na ferida, os relacionamentos: cada ex namorado, ou ex qualquer coisa, vai estar ali, na gaveta das “microagresiones”, possivelmente com uma pasta bem gorda. Às vezes nem entendemos o porquê de alguém nos apagar do mapa. Somem, não querem nos ver, nem nos escutar, nem sentir o cheiro. Não entendemos e tampouco nos colocamos na pele do outro que absorveu, por cada poro, as “microagresiones” que nós cometemos contra eles no dia a dia. Assim como também desaparecemos da vida dos outros, volta e meia, sem dar uma explicação lógica e plausível. Pensamos que as razões se subentendem: “ele sabe o porquê”- mas na verdade ele não sabe muito bem. Assim como nós não sabemos muito bem quanto veneno vamos destilando sobre as pessoas que amamos.

Coisas_simples___.jpg

Certo é que respiramos a “intensidade da perfeição” – o que não somos e o que nunca encontraremos em um outro. Se Aristóteles pudesse se manifestar diria que “o equilíbrio é a perfeição”. Se isso significa sermos menos porosos as agressões do outro ou se significa que temos que estar mais “atentos a essa palavra, esse gesto, essa micro-invasão, esse micro detalhe”, ou seja, a todos e cada um dos nossos atos, cabe a nós refletirmos.

Me despeço com “Canción de las simples cosas”, de Cesare Pavese, que assim dizia: “Al fin la tristeza es la muerte lenta de las simples cosas, esas cosas simples que quedan doliendo en el corazón.”

Canción de las simples cosas na voz de Juan Fernando Velasco


Laís Locatelli

De alma cigana, de curiosidade espontanea...Uma leitora incansável que crê no ser humano: somos bons e maus. Isso é ser completo. .
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