shine on you crazy diamond...

"Nobody knows where you are, how near or how far..."

Laís Locatelli

De alma cigana, de curiosidade espontanea...Uma leitora incansável que crê no ser humano: somos bons e maus. Isso é ser completo.

A vida de Pi de nós mesmos


Os desfiles de carnaval nunca me pareceram tão reais. É pluma daqui, ilusão de ótica dali, carro que não é carro, princesa que não é princesa e o reino mágico que só existe nos nossos sonhos.

Parece com a dinâmica da vida. Vamos criando ilusões aqui, mundos de faz de conta ali...Como a Vida de Pi, o filme que mostra a extraordinária história de um menino que fica à deriva no mar, em um pequeno bote, com um tigre. Logicamente que era a imaginação de Pi que construiu aquela vida espetacular, cheia de aventura, simplesmente porque a realidade da experiência era dolorida, solitária, nada colorida: era a não-vida.

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Se olharmos para além do nosso umbigo, vemos que essas criações não são exclusividade nossa. E nem falo sobre os mil amigos e fotos do facebook. Falo sobre a maneira coletiva de criarmos ilusões. Ilusão sobre ter poder, sobre ser perfeito, sobre ter dinheiro, sobre tem posição, sobre ser importante. A gente é importante mesmo é para a mãe da gente. Para os filhos, quando somos bons pais, para um amor, com muita, muita sorte, e com mais sorte ainda, para um ou dois amigos.

Tampouco temos o poder que pensamos ter. A não ser que fossemos Gandhi ou Obama. Nem somos perfeitos, a não ser que fossemos Deus ou uma pintura de Salvador Dalí. Logicamente, a nossa mente, que é infinitamente mais esperta do que nós em sã consciência, cria umas engenharias para nos dar a sensação que somos mais perfeitos que os outros. Freud explica...projeções, entre tantas outras coisas, enfim...achamos alguém mais culpado que nós, menos moral que nós e colocamos nele a culpa do nosso mal estar. Mas, se não formos para anos e anos de análise, morreremos sem reconhecer nossa ignorância, fraqueza e maldade.

O maravilhoso mundo de faz de conta vive o ano inteiro no pavilhão da escola de samba do nosso ego. Quando termina o desfile e não somos os campeões, acharemos um culpado. Foi o sambista, o desenhador, o carnavalesco, a comunidade ou a falta de patrocínio. Ou a mãe, uma amiga, uma rival, um concorrente, um amor que não deu certo...O certo é que sempre estará lá, um culpado, que nós, com todo bom senso, tolerância e boa índole que sempre tivemos, vamos julgar.

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Identificada a medusa, pronto voltaremos para o pavilhão imaginário da comunidade, da fantástica vida de nós mesmos, tentar com mais ênfase ganhar dos outros na próxima oportunidade, no próximo desfile. Porque sabe, quem é importante no mundo, somos nós.

O resto dele é só uma ilusão.


Laís Locatelli

De alma cigana, de curiosidade espontanea...Uma leitora incansável que crê no ser humano: somos bons e maus. Isso é ser completo. .
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