shine on you crazy diamond...

"Nobody knows where you are, how near or how far..."

Laís Locatelli

De alma cigana, de curiosidade espontanea...Uma leitora incansável que crê no ser humano: somos bons e maus. Isso é ser completo.

É possível nunca ser magoado?

Jiddu Krishnamurti fez essa pergunta e conseguiu responde-la. A resposta é simples, ou quase.


Há algum tempo assisti a um vídeo de um mestre, um filósofo, educador e pensador, um ser de luz, alguém com um conhecimento infinito sobre a vida e as pessoas, o indiano Jiddu Krishnamurti, que falava sobre a possibilidade de ninguém no mundo conseguir nos magoar.

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Jiddu é um senhor muito simples e com aspecto tão calmo que parece tímido. Quando ele introduziu o tema todos começaram a rir. Ele esperou. Calmamente disse que não sabia falar em público e disse também que não era nenhuma piada, que era um assunto muito sério, não havia motivos para risadas. Questionou quanto tempo das nossas vidas, quanta energia, quantos sentimentos que temos todos os dias, quantas ações, reações, fofocas e maledicências têm origem na mágoa. Ele parte do pressuposto que nós temos uma imagem sobre nós mesmos que defendemos com unhas e dentes. Se pensarmos que somos inteligentes e alguém falar que somos burros, ignorantes ou que não entendemos alguma coisa, estará cultivando uma mágoa no nosso peito (ou seria no nosso ego?). Se pensarmos que somos belos, basta alguém dizer que somos feios, que estamos feios, gordos, magros, ou o que seja, e lá estará a mágoa. A lista das características que nós mesmos nos damos é interminável. O rol do que somos está tão profundamente enraizado que, aquilo que acreditamos ser, torna-se nosso objetivo fazer com que todos acreditem que realmente somos: honestos, sinceros, fiéis, leais, atrativos, amigos, com caráter, com personalidade, com dinheiro, com poder, com influência, com simpatia, com isso, com aquilo... Ele questiona: e se nós não tivéssemos uma ideia fechada de nós mesmos? Não seria mais fácil viver, conviver, interagir, se apegar, se desapegar, sem ódio, sem raiva, sem mágoa, sem ego ferido? Parece que sim. Se alguém diz: você é ignorante, possivelmente você é ignorante. Pelo menos em um número imenso de temas. Seja na química, física, psicologia ou política. Em alguma coisa, com certeza, você será. Ninguém sabe tudo, e ignorância é ignorar alguma coisa. Então porque isso te fere tanto? E se alguém fala: você é feio. Possivelmente, para quem fala, você é feio. Cada um tem o seu gosto, gosto não se discute e não se contesta. Para o outro, você é feio e isso não interfere na sua vida porque uma infinidade de pessoas vêem a sua beleza. Mesmo que alguns não. Para ele, você é feio. E deve, de fato, ser. Logicamente que há quem “pica”, quem provoca, quem tenta machucar, tenta destruir a imagem de alguém frente aos outros. Parece bastante lógico não responder a uma provocação, mas lógica a parte, não é sempre que temos a consciência limpa e a personalidade calma para abstrair a crítica venenosa, e volta e meia reagimos. Caímos na dinâmica mesquinha do outro. Respondemos para defender a imagem que temos de nós mesmos. Respondemos com o nosso ego.

equilibrio pedras.jpg Há pouco tempo atrás caí numa provocação. Justo eu que busco a neutralidade de forma constante. Mas, às vezes, simplesmente, o ego infla e a boca explode. Respondi a uma provocação de um ego sem autoestima, que precisava por alguém para baixo para se sentir para cima. No momento em que respondia, me lembrava do mestre Jiddu que ensinou lindamente como jamais sentir mágoa. Pensei comigo: Quando é alguém sem importância, é fácil deixar para lá. Quando é um amigo, até então, querido, é mais difícil passar pela peneira do bom senso, isolar conscientemente os sentimentos para não reagir frente a desilusão de saber que esse alguém interpretou ser o que não era, e por muito tempo conseguiu representar o personagem que acreditava ser. Mas, em algum momento, esse personagem desfalece e dá lugar a pessoa que realmente é. Aparece a figura frágil, por vezes amarga, um corpo impregnado de mágoas, que não faz mais que ir transferindo e transmitindo aos outros o seu oceano particular de mágoas cuidadosamente guardadas ao longo da vida.


Laís Locatelli

De alma cigana, de curiosidade espontanea...Uma leitora incansável que crê no ser humano: somos bons e maus. Isso é ser completo. .
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