shine on you crazy diamond...

"Nobody knows where you are, how near or how far..."

Laís Locatelli

De alma cigana, de curiosidade espontanea...Uma leitora incansável que crê no ser humano: somos bons e maus. Isso é ser completo.

"O pavor de se declarar." Fabrício Carpinejar


Quase perfeito.

É esse o nome da coluna de Carpinejar no periódico Zero Hora. As perguntas surgem, ele encontra explicações, lógicas, justificativas...encontra um meio de se fazer entender, de sugerir outra perspectiva, outro ponto de vista, quiçá uma ótica imparcial para um número sem fim de perguntas capiciosas (dessas...dúbias, que podem induzir ao erro).

carpinejar.png Jornal Zero Hora.

Se é piegas ou somente curioso, a coisa de perguntas e respostas sobre relacionamentos sempre tem um que de graça. Começa no nível 1, com a revista Capricho, se passa para o 2, com a revista Claudia e Nova, e termina no Zero Hora, com o Carpinejar.

Numa dessas colunas, uma tal de Melanie pergunta o porquê da dificuldade de alguém se expressar quando gosta de outrem. O porquê de duvidar do sentimento, mesmo que os pensamentos estejam sempre focados no outro. E, até mesmo, quando se sabe que há reciprocidade.

Carpinejar responde lindamente:

"Sempre que somos verdadeiros, queremos nos boicotar. Sempre que somos falsos, apressamos nossa entrega. Quando amamos de verdade, nos dificultamos. Quando amamos de mentira, nos facilitamos.

Sou defensor da ideia de que a timidez demonstra a autenticidade do sentimento. Quem não sente um pouco de vergonha na hora de tirar a roupa não ama. Quem não sente um pouco de retração na hora de abraçar, não ama.

O pudor é o Inmetro do amor. Vem expressar cuidado e respeito. Vem para sugerir o quanto é valiosa aquela cena. Vem para evitar possíveis estragos.

(...)

A saudade é a prova dos nove. A saudade é uma memória atrasada. A saudade é o que deveríamos ter feito.

Relaxa. Qualquer palavra quando se ama é a certa, pois ela só vai abrir passagem para o beijo. O beijo corrige todo o tropeço."

Quase ia esquecendo...O pavor de se declarar. É esse o título dessa coluna do Carpinejar: O pavor de se declarar.

Tens toda a razão, meu caro Carpinejar. Tratamos tanto de aperfeiçoar nossos mecanismos de defesa que nos tornamos profissionais em mentir para nós mesmos. Em nos boicotar, em procurar a pessoa mais fácil, mais simples, como se esse fosse essa a que mais nos fizesse feliz.

Eu recordo que na época de faculdade eu gostava tanto, mas tanto, de um menino, que comecei a namorar outro. "Que louca", você pode pensar. Tenho quase certeza que muita gente ou já fez ou tentou fazer a mesma coisa. Pura metodologia para escapar de uma possível dor, decepção, medo do não, da rejeição. "Quando amamos de verdade, nos dificultamos". É uma escuridão, clara como a luz do dia. Está na nossa frente e não vemos. De fato, empregamos todas as ferramentas de defesa para nos desviar de quem desejamos de todo o coração.

salvadordalimetamorfosedenarciso.jpg Salvador Dalí, Metamorfose de Narciso.

O final dessa história, da minha história, foi uma história sem final, uma história parcialmente vivida, mal resolvida. "A saudade é o que deveríamos ter feito".

No dia que eu terminei o namoro (porque, quanta surpresa, descobri que não gostava tanto assim, ou quase nada, do dito namorado) encontrei o outro, por quem eu descobri (outra surpresa, super inesperada) que ainda era apaixonada. Nesse dia mesmo, ficamos juntos.

Durante alguns anos fomos ficando juntos. Doeu muito, doeu pra burro. Me decepcionei imensamente, porque tinha a expectativa tão alta como as nuvens no céu.

Mas, se tivesse que escolher qual deles valeu a pena, sem sombra de dúvida diria que foi a paixão dolorida - e cheia de riquezas que nem consigo descrever. Do namoro anterior, lembro que foi tranquilo, que tivemos bons momentos - mas tampouco consigo recordar deles.

O sentimento, o desejo, a paixão, o amor, compensam cada segundo de dor de estômago que trazem consigo. Calafrios, noites mal dormidas, choros no travesseiro e nossa autoestima devastada em alguma manhã de domingo.

Mas que somos, nesse momento de dor, infinitamente felizes, isso somos.


Laís Locatelli

De alma cigana, de curiosidade espontanea...Uma leitora incansável que crê no ser humano: somos bons e maus. Isso é ser completo. .
Saiba como escrever na obvious.

deixe o seu comentário

Os comentários a este artigo são da exclusiva responsabilidade dos seus autores e não veiculam a opinião do autor do artigo sobre as matérias em questão.

comments powered by Disqus
version 1/s/// //Laís Locatelli