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"Nobody knows where you are, how near or how far..."

Laís Locatelli

De alma cigana, de curiosidade espontanea...Uma leitora incansável que crê no ser humano: somos bons e maus. Isso é ser completo.

A banalidade do mal


“O mal sempre foi mais ou menos banal”. Dentro de um contexto histórico, dentro de um espaço geográfico, muito mal pode ser permitido, incentivado e até mesmo visto como justo.

Começo pelo começo, por Hannah Arendt, autora do livro “Eichmann em Jerusalém” que teve acrescentado um subtítulo, por uma editora brasileira: “Um relato sobre a banalidade do Mal”. Originalmente a expressão foi usada por Hannah após acompanhar o julgamento de Adolf Eichmann, que, na Alemanha nazista, organizava a identificação e o transporte de pessoas para os campos de concentração, o “executor-chefe”, encarregado de um número sem fim de mortes, acredita-se que cerca de 1,5 milhões, do extermínio em massa dos judeus.

eichmann2.jpg O “executor-chefe” do Terceiro Reich, Eichmann.

Acredito que Hannah, no julgamento de Eichmann, esperava ver um monstro com cara de monstro, mas foi pega de surpresa vendo um humano com cara de humano, desses humanos que a gente vê todos os dias pela rua, na padaria, sentado na cadeira ao lado na escola ou no trabalho. Na corte, Eichmann tinha até um jeitinho meio submisso e justificou, se é que pode se dizer que existe justificação para o injustificável, das atrocidades sádicas que cometeu, como o cumprimento do seu dever, que cumpria com zelo e eficiência.

O monstro ou humano ou simplesmente Eichmann, foi avaliado por especialistas que não detectaram doenças mentais, o que nós teríamos gostado de escutar, que ele estava doente, porque em sã consciência não gostamos de assumir que o humano tem um lado mostro sádico que pode se manifestar com vigor e fervor. Hannah ficou confusa, como eu e você e todo mundo que se intera que um monstro, citamos um exemplo cotidiano, um pedófilo que destroça um corpinho em formação e depois o esquarteja, seja no sentido físico ou seja no psicológico, não seja considerado um louco, um demente.

hannah-arendt.jpg Hannah Arendt

Mas a diferença de nós todos, que assistimos atrocidades calados e chocados, Hannah se colocou a pensar e escrever sobre o tal de Eichmann, um entre tantos monstros sádicos daquela Alemanha nazi. Chegou a seguinte conclusão: "muitos indivíduos na Alemanha Nazista não eram nem perversos nem sádicos, eram assustadoramente normais. Essa normalidade é muito mais aterradora do que todas as atrocidades juntas".

Anormal, aparentemente, não era. Mas por dentro passam muitas coisas que nem os médicos podem detectar. Quem pode saber são as pessoas que cruzam o caminho dessa gente anormal ou as pessoas normais que são induzidas a serem anormais e se tornam, ao fim e a cabo, anormais.

O holocausto não foi contra os judeus. Foi um crime contra a humanidade, contra todos nós. Israel tem um dia específico para lembrar do que aconteceu. “Lembrar para não esquecer”. E lembrar também que a banalização do mal continua viva e operante. Basta abrir os jornais, ligar a teve e ver imagens como essa:

apedrejamento[1].jpg “No início do Islamismo, previa o Alcorão, versículo 19 da quarta sura, que as mulheres de ação infame (prevaricadoras), comprovada por quatro testemunhas, poderiam ser emparedadas até a morte, ou sobreviventes caso ocorresse uma intervenção divina.”

“Sejamos justos, vamos regular essas leis como apedrejamento” - pensaram os donos da verdade, sujeitos normais, desses que vão todos os dias ao comércio, abrem suas tendas e vendem para os turistas suas especiarias, e determinaram, por exemplo, de acordo com o código penal iraniano, artigo 116: "Pedras usadas em apedrejamentos não devem ser grandes, a ponto de matar a adúltera no princípio de sua punição, nem pequena a ponto de não causar dor". Conclusão: apedrejar uma mulher não é ilegal, ilegal é usar a pedra pequena ou grande demais. Entre a relativização do que é certo e do que é errado e suas conquencias que, infelizmente, conhecemos, e a clareza que o mal é banal porque suas motivações são banais, superficiais e se expandem pelo mundo em um piscar de olhos, encontramos nós todos, como mero expectadores, a rezar e pedir para que não sejamos nós mesmos as vítimas.

“Lembremos para não esquecer”.


Laís Locatelli

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