shine on you crazy diamond...

"Nobody knows where you are, how near or how far..."

Laís Locatelli

De alma cigana, de curiosidade espontanea...Uma leitora incansável que crê no ser humano: somos bons e maus. Isso é ser completo.

“Há um quê de prisão no ato de confiar.”


Eu desconfio da confiança que me depositam, assim como o Rodolfo Viana, autor da frase “Há um quê de prisão no ato de confiar”.

A confiança do outro é aquela coisa revestida de chocolate, mas que por dentro pode ser uma berinjela. Parece doce e bonita - e um tanto utópica, para não dizer utópica de todo, mas nem sempre é. Quem confia espera que o outro se comporte respeitando todas as suas expectativas: “Espero que você nunca me traia”. Uma expectativa. “Espero que você esteja sempre disposto a me ajudar”, mesmo que isso signifique um sacrifício seu, dar mais que pode, mais que quer e mais do que estaria disposto. Tudo isso porque eu confio em você. CONFIO, entendeu?

A confiança é uma ordem, não é um pedido. Uma vez que você quebre a confiança, ilusão, sonhos, expectativa, ideal que o outro construiu e te colocou no meio, você é um traidor. Isso, um traidor, que merece ser atirado na cova dos leões e que dá o direito do outro, traído, sair falando mal de você para todo mundo. Afinal, os amigos e conhecidos se compadece com um coração partido. Nem que esse coração seja fruto do egoísmo em exigir que o outro seja o que ele não é. Como se fosse uma realidade construída no mundo de Alice no país das Maravilhas da cabeça do outro. Uma realidade paralela, uma fantasia.

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Já perdi um bom número de namorados, amigas e outro punhado de coisas por causa de uma confiança que tentaram atirar para que eu pegasse e ficasse segurando como uma batata quente, das grandes, até queimar as mãos. Porque tem que aguentar, é o que o outro espera. Depois eu que me vire em suporte a dor, aguentar ser queimada, afinal amigo é pra isso mesmo, não é?

Não é. Não concordo e não aceito o encargo. Se roubou minha conquista, não vou respeitar sua paixão, vou pegar de volta. Se espera que eu de mais do que quero e posso, não vou, vou respeitar a mim mesma e não a sua ilusão.

Às vezes são coisas banais, nascidas de diálogos banais. Recordo que um ex, com uma caixa de pandora de problemas, disse: “Nós vamos vencer tudo isso juntos”. Automaticamente virei para ele e disse: “Cada um com sua cruz e seus pecados... esses são os SEUS problemas”. Naquele momento que eu falava eu sabia claramente que o sonho de ser a Cinderela dele havia acabado. Eu acabei com o romance, não seria mais digna do amor do outro. Como eu pude ousar ser sincera e deixar as coisas claras? Pecado mortal, heresia, já para a fogueira!

Tem gente que deixa os limites do que vai ser e do que não esta disposta a interpretar bem claros desde o início, e mesmo assim não é compreendido: “olha, não confie tanto em mim, eu não estou disposto a fazer isso” (seja lá o que for). Além do outro pensar que vai te mudar o suficientemente para poder “confiar” em você, ainda vai ver o circo todo como um desafio e não vai desistir até ficar decepcionado e com o coração partido - e você será o gargamel dos smurfs da história.

Confiar é aquela mistura de egoísmo em querer que o outro seja como eu quero e egocentrismo, lasque-se o outro, porque assim é como eu quero.

A confiança existe sim, quando é um natural felling, não pedido, não exigido. Uma mãe que deseja ser confiável para seu filho. “Sempre vou estar aqui por você”. Quando a menina deseja ser fiel ao namorado (ou a ela mesma e ao seu sonho romântico de conto de fadas com príncipe sapo e princesa): “vou ser sempre fiel a você não importa o que passe” (será que não importa mesmo? Não importa que o outro não seja perfeito, não importa que decepcione, não importa que ele não seja fiel?).

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O problema é quando o outro não quer assumir esse compromisso da confiança. A confiança é o sacrifício do outro. Uma mãe se sacrifica pelo filho, muitas vezes com amor, mas se sacrifica. Pode estar ali para ele, para sempre, porque quer e deseja, mas continua sendo um sacrifício: vai abrir mão da realização de sonhos, de paixões, de consumos, de ser outra pessoa, e vai fazer tudo isso por amor incondicional, sem que lhe seja demandado.

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Termino com Nietzsche: “A objeção, o desvio, a desconfiança alegre, a vontade de troçar são sinais de saúde: tudo o que é absoluto pertence à patologia”.


Laís Locatelli

De alma cigana, de curiosidade espontanea...Uma leitora incansável que crê no ser humano: somos bons e maus. Isso é ser completo. .
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