shine on you crazy diamond...

"Nobody knows where you are, how near or how far..."

Laís Locatelli

De alma cigana, de curiosidade espontanea...Uma leitora incansável que crê no ser humano: somos bons e maus. Isso é ser completo.

Hey Joe, onde é que você vai com essa arma aí na mão? (NIMPHOMANIC II)


Somos todos doentes, em maior ou menor medida. Von Trier, quiçá seja esta tua mensagem.

Somos seres que não se comunicam, que instintivamente se movem, rastejam, fodem, traem e se matam.

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Nimphomanic II é um golpe duro, esfrega na nossa cara a perversão, a tara, a indiferença com o outro, o descaso, a humilhação, o masoquismo e o sadismo nosso de cada dia.

Joe, você representa as mulheres do mundo, tem o direito de ser pervertida, tem a opção de abandonar um filho, os homens fazem isso todos os dias, e daí?

Poderia acabar com essa mensagem, mas não acaba. Não seria real porque o virgem ingênuo, bom amigo, não existe – esse homem bom também é um pervertido que vai te trair porque é fiel aos instintos dele.

A mensagem não é a liberação feminina. A mensagem é: somos todos uns doentes.

Como a ninfa, desculpamos as falhas dos outros quando nos sentimos culpados pelos nossos erros. Nos deixamos derrubar, nos agredirem, provocarem as maiores humilhações em nome da nossa própria culpa. Até na culpa o egocentrismo está presente.

Ninfo II veio mais forte, mais provocativo. Nos faz ver a perversão de um e de outro, até que alguma delas reflita em nós mesmos. Somos todos pervertidos. O que fazemos com a perversão? - é uma boa pergunta: é a pergunta do filme. O que fazemos com a nossa doença?

Em maior ou menor medida, conseguimos reprimir ou controlar nossa barbárie. Mas, para perdemos o controle, sobre nós mesmos, é uma questão de tempo e provocação.

Joe vai do céu ao inferno. Tem uma vida tranquila ao lado do seu grande amor, um filho lindo, o sonho de quase todo mundo. Mas não o de Joe. Essa vida nostálgica e sem graça faz com que, literalmente, ela perca o tesão. Seu desespero comove o homem amor da sua vida, que se desespera por ter um tigre em casa e não ter comida suficiente para alimentá-lo, se é que me faço entender. Ele dá a Joe a possibilidade de ser livre, sexualmente livre. Ela aceita, mas se cansa de conquistas que não a desafiam mais. Nesse momento ela recorre aos “homens perigosos”, homens que ela não controla, que a machucam e a coisificam. Como se tivesse que pagar pelos seus desejos. Uma autoflagelação. Acaba indo trabalhar no submundo, com o que sabe fazer bem: com a perversão, dela e dos outros.

Acaba no inferno de Dante, agredida, traída, mijada, dilacerada. Encontra uma boa alma que de boa, desconfio, não tem nada além de ser um sujeito altamente reprimido. E termina pior do que começou: além de doente, assassina.

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Concluo que, o máximo que podemos fazer é controlar nosso próprio descontrole, e olha lá. Arduamente conseguimos. E em hipótese nenhuma podemos controlar o outro. Não sabemos o que está dentro do outro, ninguém nos apresenta o mundo interno – nem do outro, nem o nosso.

Despeço-me com Carl Jung: “Mostre-me um homem são e eu o curarei para você”.


Laís Locatelli

De alma cigana, de curiosidade espontanea...Uma leitora incansável que crê no ser humano: somos bons e maus. Isso é ser completo. .
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