shine on you crazy diamond...

"Nobody knows where you are, how near or how far..."

Laís Locatelli

De alma cigana, de curiosidade espontanea...Uma leitora incansável que crê no ser humano: somos bons e maus. Isso é ser completo.

Se for chorar, te amo.


Sobre os meus romances, sempre me pareceu lógico, claro e natural que havia um desejo pulsante em aprender da outra pessoa. Não se tratava só de amor, de paixão, de tesão. Tratava-se de ter um mestre. De alguma forma, alguma coisa tinha que ensinar.

Alguns tratavam de me ensinar a lidar com meus sentimentos, a ter paciência, a me deixar amar. Mas não me convenciam muito. Eu desejava mais, mas não sabia o que realmente buscava, o que me movia a mudar de objeto amado – que eu mudava, mudava e mudava de novo.

Aprendi o que me movia com um namorado que foi meu mestre. Como Hannah Arendt teve Heiddeger de amante e mestre. Que inveja Hannah! Imagina poder colocar um cérebro como o de Heiddeger na minha cama e ter diálogos informais que deveriam ter a profundidade de um buraco negro. Ou como Lou Salomé que foi amante de Rilke e amiga íntima de Nietsche e de Freud... Como não se tornar genial estando em profundo e íntimo contato com gênios.

hanna heideegger.jpg Stacy Ross as Hannah Arendt and Robert Krakovski as Martin Heidegger in San Jose Repertory Theatre�s Hannah and Martin. Photo credit: Kevin Berne

Do meu romance afirmo sem margem de erro que ele foi o homem que me ensinou a pensar, que me fez questionar a vida, a filosofia, as pessoas, os porquês. Eu dormia encantada e acordava encantada. Vivia em um êxtase de encantamento. Poderia ter vivido a vida assim, em um êxtase, mas não foi o que aconteceu.

Em um dia como outro qualquer, sem motivo específico, terminamos. Eu disse apenas: tenho pena que isso termine antes mesmo de começar. Essa foi nossa despedida, sem choros nem lamentações (externos).

Depois encontrei relacionamentos de fácil manejo. Simples, divertidos, de idas ao cinema, de conversas sobre o dia a dia, coisas da vida, mas nunca sobre a vida. Simplesmente, coisas...quase sempre superficiais, deixando enterrado um mundo dentro de mim mesma, apagado e intocado.

Isso me faz recordar um episódio de Sex and City, quando Carrie encontra Big saindo da festa de noivado dele e da mulher linda, sem sal nem açúcar, com quem ele irá se casar. Carrie pergunta: porque não eu? Ele responde, de maneira tímida, com certa vergonha em reconhecer, que com Carrie tudo se tornou muito complicado. Ela entendeu porque não ela: ele optou pela simplicidade. Na continuação Carrie e Big tiveram encontros apaixonados. Big sentia falta do sal, do açúcar, de alguma coisa que o provocasse, que o tirasse do sério, que o removesse por dentro. “A minha casa é bege, tudo é bege, o sofá, a sala, o quarto...”, disse ele. O que estava bege era ele, a vida dele, sem cor, sem sensações.

Meu romance fez com que eu saísse da minha zona de conforto, fez com que me desafiasse. Não foi ameno, nem indolor, como poderia ser? Relações assim são um chute na boca do estômago, desconfortantes, com momentos confusos, com borboletas no peito e um dragão da cabeça.

Mas sabe como é, as coisas se colocaram muito complicadas, e a simplicidade é tão confortável...Mas, quando voltei à zona de conforto, encontrando romances sem mestres, tinha a sensação de doar amor. Não era uma troca, era dar. Não deixava de ser amor, amava. Especialmente se o outro fosse chorar, se clamasse por esse amor, de certa forma amando pelos dois, gerando quase uma obrigação para amar de volta: Se for chorar, te amo.

Despeço-me com Lou Salomé: "O Mundo da criação e do amor significa: volta ao país natal, entrada no paraíso; o da impossibilidade de criar, ou do amor morto, é, ao contrário, um exílio onde os deuses nos abandonam".


Laís Locatelli

De alma cigana, de curiosidade espontanea...Uma leitora incansável que crê no ser humano: somos bons e maus. Isso é ser completo. .
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