shine on you crazy diamond...

"Nobody knows where you are, how near or how far..."

Laís Locatelli

De alma cigana, de curiosidade espontanea...Uma leitora incansável que crê no ser humano: somos bons e maus. Isso é ser completo.

A força da ausência


“A saudade fará mais por nós dois que nosso amor e sua desajeitada e irrefletida permanência”. Quando li essa frase de Martha Medeiros, instantaneamente, ela me remeteu a um infinito de memórias.

Lembrei de todos as paixões que me consumiram e depois desapareceram no ar ao se tornarem reais. Romeu e Julieta é o retrato que exemplifica o que eu falo e sobre o que eu falo. Um amor eterno, um amor não realizado e impossível. Por isso foi eterno. Se fosse real seria mais uma relação com brigas, com ciúme e com mal entendidos. Mas quando não é real aparece a magnífica imaginação do amor perfeito - algo que não existe.

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Eu sou apaixonada por estar apaixonada. Como o Coiote, livro magnífico de Roberto Freire. O coiote é a representação do tesão pela vida. Por tudo, por todas as coisas, por cada sensação e por ninguém em específico. Ele não vive, ele se delicia. Um hedonista.

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Coiote me ensinou muito. Me ensinou o prazer pelo prazer e o presente como único tempo. O passado não existe, passou, pode ser relembrado, mas não pode ser revivido, de nada adianta nos transportarmos para lá. O futuro é algo abstrato, pode vir, pode não vir, pode concretizar objetivos, pode mudar todos eles. É o presente onde se vive, onde se está, onde deveria se sentir. Quando você pensa em alguma coisa, em que tempo você está? Está pensando no amanhã com pedaços de memórias do passado. E o presente fica esquecido, como se fosse somente uma ponte entre passado e o futuro.

Para se viver no presente precisa ser um tanto Coiote. O que eu chamo jeito Coiote de ser. Não dependa, não espere, não crie expectativas. O amor vai te decepcionar no futuro, ele vai se tornar tão real que vai te entediar. Viva o desejo que ele te desperta, agora. Sorria para ele e com ele. Qual é a lógica de esperar a solidez para querer viver nas nuvens? É um paradoxo. Para se viver nas nuvens não se pode estar no chão.

Até quando eu pude, eu fugi da permanência. Estar e não estar, desaparecer e deixar saudade. Chorar de saudade que eu provoquei. Não é sadismo nem masoquismo: é hedonismo.

Na voz do poeta Vinícius de Moraes seria: “Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado”. A saudade é a vivência mais intensa. Através dela que a gente vive um grande amor, absoluto, aquele que desejamos e sonhamos. O que está antes da saudade, o real, para ser bem vivido, reconheço somente o caminho do Coiote.

Resumiria com Martha meu jeito coiote de ser: “Sumi porque não há futuro e isso não é o mais difícil de lidar, pior é não ter presente e o passado ser mais fluido que o ar”.


Laís Locatelli

De alma cigana, de curiosidade espontanea...Uma leitora incansável que crê no ser humano: somos bons e maus. Isso é ser completo. .
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