Bianca Pinheiro

Uma alucinada que tem medo de relacionamentos e derivados e que escreve coisas absurdas. Gosta de se esconder embaixo de um véu de timidez e introversão. Apaixonada pelas letras, é uma refém da escrita.

A dor existencial em O lado bom da vida

Um filme que se encontra no limiar entre o drama e a comédia, O lado bom da vida tem sido comumente classificado como uma comédia romântica. No entanto, a obra surpreende os espectadores ao tratar de um tema filosófico: a dor existencial moderna.


The-Silver-Linings-Playbook.jpg

O modelo econômico vigente produziu um estilo de vida acelerado, que se baseia no trabalho e no consumo. São tantas as pressões, tantos os pré-requisitos que devemos ter, tantas coisas que devemos ser. E isso é tão constante e pesado que fica difícil de carregar, de suportar. Assim, surgem milhares de medos, de ânsias: um verdadeiro mar de melancolia e desespero. Todos levam dentro de si essas angústias, sem nem mesmo compreendê-las. Alguns são conformados em tê-las, aprendem a conviver com elas, a ocultá-las ou, até mesmo, a vencê-las. Outros explodem, perdem o rumo e tentam se reencontrar. Às vezes, o segundo caso sucede o primeiro.

O lado bom da vida traz dois personagens nessa situação. Pat é um bipolar não-diagnosticado que tem o primeiro colapso com o pretexto de flagrar sua esposa com outro homem. Tiffany é uma mulher que ‘perde a cabeça’ com a morte do marido. Ambos têm de lidar com as emoções deflagradas por esses acontecimentos, mas que sempre residiram dentro de si. Ambos têm de lidar com a perda e aprender a se reconstruir.

Thumbnail image for silverlinings7.jpg

Diferentemente dos outros personagens do filme, Pat e Tiffany admitem suas fraquezas, reconhecem sua loucura. Não têm vidas perfeitas nem desejam que os outros pensem que o fazem. Não escondem seus pesares e distúrbios por trás de uma máscara de cortesia ou hipocrisia. São profundamente humanos, num momento em que todos esquecem da própria humanidade. São intensamente enfermos, como todos nós somos e ocultamos.

Pat e Tiffany já se conheciam antes, quando ainda possuíam vidas (supostamente) estabilizadas, mas isso não interessa. Eles se (re)conheceram, de verdade, a partir de suas dores, de seus sofrimentos. E a partir desse reconhecimento, aprenderam a se recompor, a lidar com seus problemas. Juntos, encontraram o equilíbrio único que só dois atormentados podem se proporcionar.

Afinal, o que há melhor do que dois (assumidos) loucos unidos?

Thumbnail image for silver linings playbook1.jpg

O fato é que as pressões sociais tornam todos doentes, todos vítimas. A imposição de um sistema padronizado de comportamentos e modelos de vida reduz a existência a um conjunto de regras que devem ser seguidas. Quem não agir de uma determinada maneira, quem não for de um determinado jeito, é marginalizado, é alvo de preconceito. Assim, o ser humano prefere seguir o padrão, caminhar junto às massas. Mas a supressão das características individuais em nome da aceitação social causa uma dor existencial que nem todos são capazes de suportar. Pat e Tiffany representam aqueles que resolveram enfrentar as dificuldades de ser o que se é.

À medida que defende o diferente, o não-usual, O lado bom da vida traz uma paz e uma leveza de espírito que são difíceis de se ver no cinema hollywoodiano. Apesar de ser estereotipado como uma obra de comédia romântica, o filme vai além dos clichês desse gênero, debatendo em suas entrelinhas filosofias de vida em detrimento da supervalorização de um casal de mocinha e mocinho perfeitamente alinhado à sociedade. É dramático, mas diverte. É desconcertante ao mesmo tempo que fornece o equilíbrio. Enfim, é um filme diferente.

No entanto, não é perfeito. O desfecho do longa é um tanto quanto previsível e decepcionante. Depois de assistir a quase duas horas de boas cenas e diálogos de qualidade, o filme peca ao encerrar a história de uma forma comum aos romances água-com-açúcar. Não que devesse ter um final completamente distinto, mas que seguisse a ótica do humor aliado ao drama e do inusitado, que deram tão certo durante o andamento do filme.

Com uma temática motivacional e uma história cativante, O lado bom da vida conquistou a simpatia do público, e teve sua qualidade reverenciada por oito indicações ao Oscar. Dotado de uma dose de drama e de pitadas de humor e romance, O lado bom da vida é capaz de agradar aos mais variados gostos. O excelente desempenho dos atores aliado um ótimo roteiro e a uma boa edição resultou em um filme carismático e humano, que produz uma sensação de otimismo e bem-estar nos espectadores.


Bianca Pinheiro

Uma alucinada que tem medo de relacionamentos e derivados e que escreve coisas absurdas. Gosta de se esconder embaixo de um véu de timidez e introversão. Apaixonada pelas letras, é uma refém da escrita..
Saiba como escrever na obvious.
version 6/s/cinema// @destaque, @obvious //Bianca Pinheiro