Bianca Pinheiro

Uma alucinada que tem medo de relacionamentos e derivados e que escreve coisas absurdas. Gosta de se esconder embaixo de um véu de timidez e introversão. Apaixonada pelas letras, é uma refém da escrita.

A vida e o cinema sob a perspectiva de Janela da Alma

Janela da alma é um documentário brasileiro que trata do sentido mais valorizado pelo ser humano: a visão. Ao longo do desenvolvimento do tema, utilizando-se de planos sutis e poéticos, o filme faz uma análise acerca do paradigma visual contemporâneo.


janela.jpg Oliver Sacks em trecho de Janela da Alma.

Visão. Por meio de uma vista saudável, podemos enxergar o mundo. No entanto, enxergar não é sinônimo de ver. Ver é algo mais profundo, é analisar, é dar significado e significar, é penetrar. Para ver, é necessário coordenar os sentidos, e não apenas utilizar a visão. Em uma era dotada de infinitas possibilidades, bombardeada por informações e imagens, torna-se, paradoxalmente, difícil ampliar o campo visual e expandir os horizontes. Os elementos pictóricos se acumulam, dando origem a um depósito ocupado por um espaço vazio dentro de nós mesmos. É desse tema que trata Janela da Alma. Por meio de planos desfocados, poética, trilha sonora impecável e diversos pontos de vista, o documentário analisa o papel da visão, sua forma de relacionamento com o mundo e seu impacto no indivíduo. O filme trata com extrema delicadeza, diligência e perspicácia esse dom que é rotulado como o a capacidade suprema dos nossos sentidos.

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A poesia é presente, por exemplo, em cenas do corpo humano visto de muito perto e acompanhado por sons da natureza, fazendo com que o abrigo de nossas almas pareça um campo de trigo, uma vastidão particular. A textura das pessoas é exibida, numa tentativa de captar o mais íntimo de seus seres, de chegar até a sua essência. Mas nem tal visão - tão próxima que é quase um estupro - é capaz de revelar detalhes que não podem ser vistos com os olhos. E é por isso que, segundo o filme, o sentido da visão talvez não seja tão importante. Ele pode, até mesmo, atrapalhar. São tantas fotografias, outdoors e panfletos presentes no dia-a-dia que uma deficiência visual poderia ajudar a conservar uma visão interior mais pura, mais intacta.

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A obra se relaciona com algumas áreas artísticas, como a fotografia, a literatura e o próprio cinema, mas, seu grande interesse é a vida. Questionamentos a respeito de como vivemos são levantados. É defendida a ideia de que somos vítimas de uma cegueira conjunta, causada pela ignorância visual. Afogamo-nos em um mar de imagens sem sentido cotidianamente, e, com isso, perdemos o interesse em interpretá-las.

Wim Wenders discorre sobre a repercussão desse mal no cinema. Deve-se ler entre as entrelinhas das imagens, deve-se poder projetar a si mesmo nos filmes, ele diz. Entretanto, o que há na sétima arte contemporânea são obras que já vêm ao espectador fechadas, completas. Não há necessidade de ver, só é preciso enxergar. Desse modo, o elo entre cineastas e amantes de longa e curta metragens é enfraquecido. Tal como diz Eugene Bavcar, não se deve utilizar o olhar do outro, pois, nesse caso, estaríamos existindo através do outro. No cinema, o que ocorre é que os filmes não têm deixado espaço para que o espectador formule seu próprio olhar. Nesse caso, não há um aprofundamento, uma reflexão; há, somente, a superficialidade, a banalidade.

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Os passos que a humanidade vem dando têm sido rápidos demais, seus caminhos, dotados de estradas em excesso e, em conjunto, essas características causam danos à visão interior. Os olhares se tornam demasiado desatentos, não enxergando as coisas em si, mas sim através delas. Assim, o ser humano perde traços de sua personalidade e se embrenha num tremendo vazio.


Bianca Pinheiro

Uma alucinada que tem medo de relacionamentos e derivados e que escreve coisas absurdas. Gosta de se esconder embaixo de um véu de timidez e introversão. Apaixonada pelas letras, é uma refém da escrita..
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