Bianca Pinheiro

Uma alucinada que tem medo de relacionamentos e derivados e que escreve coisas absurdas. Gosta de se esconder embaixo de um véu de timidez e introversão. Apaixonada pelas letras, é uma refém da escrita.

O amor de Kieslowski

A short film about love – Não amarás, no Brasil – é uma obra que reflete sobre um tema popularmente conhecido como amor platônico. Através da ótica de um jovem protagonista apaixonado, somos levados a analisar e compreender esse sentimento controverso.



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De acordo com a visão popular, amor idealizado é o mesmo que platônico. No entanto, existe uma diferença marcante entre esses dois tipos de sentimento: o primeiro envolve a deturpação do objeto de desejo para a satisfação de ideais amorosos próprios; o segundo baseia-se na afeição pelo que o outro de fato é, principalmente no plano inteligível.

A short film about love, do diretor polonês Krzysztof Kieślowski, fala sobre o amor, à distância e idealizado, de um jovem pela vizinha. Tomek é um garoto de 19 anos acometido por noções românticas fantasiosas. Magda é uma mulher madura que encara o amor de forma pragmática e utilitária. A partir dessa oposição entre os personagens, Kieślowski aborda o conflito gerado pelo idealismo amoroso.

Tomek se apropria da imagem de Magda sem pedir permissão. Ele é displiscente: suga, persegue e altera a mulher, e tudo isso sem avisar. Através da janela de seu quarto, espiona por uma luneta o apartamento da vizinha. O amor do garoto invade a privacidade de Magda e manipula sua imagem para a satisfação de suas ambições de amor: seguro e intocável. Nesse sentido, o sentimento do rapaz é semelhante ao que se costuma chamar de amor platônico: ama-se em silêncio algo criado por si próprio a partir do outro.

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Com o desenvolvimento da história, chega um momento em que Tomek se revela para Magda, quem sabe para levar adiante, em um plano concreto, o amor que sente. Entretanto, as oportunidades que têm de se conhecer melhor e estreitar os laços se mostram infrutíferas. Em um dos diálogos entre os personagens, Magda pergunta ao garoto se ele deseja beijá-la ou fazer amor com ela. Tomek acaba fugindo da mulher, apesar de desejá-la em sua mente, e essa atitude explicita a verdadeira essência do amor idealizado.

O amor idealizado não quer uma aproximação; é autosuficiente em si mesmo. É o amor pela imagem que se construiu do outro, não pelo outro. Sendo assim, não deseja o toque; é imaculado. É o amor que foi erigido à margem de uma figura distante. É como o espelho convexo utilizado por Kieślowski conotativamente: diverge, irradia, amplia o campo de visão, mas diminui a imagem produzida, que é virtual. Dessa forma, através desse instrumento tem-se uma visão mais ampla do todo, mas se vê com distorção. Falta nitidez por conta da ausência de proximidade. E é bom justamente por causa disso.

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Mas o distanciamento dá uma falsa sensação de controle, como se você não pudesse ser atingido ou tocado; como se você fosse um simples observador, alguém fora da história. Tomek se sente protegido pela distância, mas, na realidade, é um personagem ativo da história construída por ele mesmo e, como tal, foi contaminado pelo desejo de possuir o outro mundano que se confunde com o outro ideal. A partir das consequências do impulso de conhecer Magda, vê-se diante de um conflito: o que é isso que ele sente?

Talvez Platão estivesse certo, afinal de contas. Talvez os sentidos realmente nos enganem e precisemos ir além de seus limites para encontrar verdade. Tomek confiou demais nos sentidos e esqueceu da razão e, com isso, perdeu-se. Ao perceber a gravidade do estado do rapaz, Magda vai visitá-lo na cena que se revela uma das mais belas e instigantes do cinema. Em seu quarto, a mulher encontra a luneta utilizada por ele para observá-la, e experimenta o ponto de vista do garoto. E então ela, desacreditada de qualquer forma de amor sentimental, fica maravilhada e compreende. É tudo uma questão de relacionamento consigo mesmo. De imaginação.

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Assim, a obra mostra que o amor idealizado não é tão diferente dos outros tipos de amor. Parece puro. Parece não querer nada em troca. Parece dar paz. No entanto, o amor idealizado também traz inquietude, também é sujo e também machuca. A diferença é que você vive tudo isso dentro de uma bolha guiada pela sua imaginação.

Bianca Pinheiro

Uma alucinada que tem medo de relacionamentos e derivados e que escreve coisas absurdas. Gosta de se esconder embaixo de um véu de timidez e introversão. Apaixonada pelas letras, é uma refém da escrita..
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