Bianca Pinheiro

Uma alucinada que tem medo de relacionamentos e derivados e que escreve coisas absurdas. Gosta de se esconder embaixo de um véu de timidez e introversão. Apaixonada pelas letras, é uma refém da escrita.

Cópia Fiel

Reprodução, imagem, cópia e original são conceitos abordados em Cópia Fiel, uma coprodução entre França, Itália e Bélgica dirigida pelo iraniano Abbas Kiarostami.


Já dizia Schopenhauer que o mundo é nossa representação. Nesse sentido, as coisas que nos cercam não são nelas e por elas mesmas elementos definidos; as coisas são aquilo que o observador acredita que sejam. Logo, não há uma verdade universal, mas sim múltiplas interpretações a respeito do mundo e daquilo que o constitui. Em Cópia Fiel – filme de 2010 dirigido por Abbas Kiarostami – o espectador é instigado a refletir sobre o tema. Podemos encontrar uma verdade – ou o original?

James e Ella são, a princípio, dois desconhecidos. Ele, um filósofo inglês que acabou de lançar um livro sobre originais e cópias no mundo da arte. Ela, dona de uma loja que vende obras artísticas. Ella vai a uma palestra que James ministra a respeito do livro que está lançando e fica tão intrigada pelas ideias que o autor defende que deixa seu contato, esperando que ele a procure. Quando os dois se encontram, saem para um passeio pela cidade a fim de discutir sobre a obra de James.

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Ao longo do encontro, questões sobre a legitimidade da obra de arte são abordadas. James acredita que muitas coisas podem ser consideradas como arte, mas são esquecidas por não estarem em um museu. Para ele, então, o estatuto de obra de arte não existe em si: é conferido pelo contexto em que o objeto está localizado e pelo olhar do observador. O filósofo também segue essa linha de raciocínio em relação à dicotomia original x cópia: uma cópia só é desvalorizada quando é conhecida como uma cópia, quando se sabe que ela reproduziu outra obra de arte; caso não se tenha essa informação, ela será reverenciada como um original. Mas, se uma cópia reproduz uma obra precedente, não é verdade que a arte original também é a reprodução de algo?

Permeado por esses questionamentos, o passeio das personagens surpreende o espectador no momento em que Ella e James começam a agir como esposa e marido. Tal fato é desencadeado por uma senhora que os atende em um café e começa a se referir a eles como se fossem casados, porque, para ela, Ella e James passam a imagem de um casal. Nesse ponto, Abbas Kiarostami mostra que a confusão entre cópia e original não se restringe ao mundo da arte, mas também está presente no cotidiano através das imagens e aparências.

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A representação que eles empreendem é tão realista que o espectador não sabe se os dois estão encarnando o papel de casal ou se têm, de fato, um relacionamento. Nesse sentido, existe uma verdade, mas que é difícil de ser encontrada devido à fidelidade da imagem que as personagens constroem. Ella e James são a cópia perfeita de um casal – que talvez seja inspirada pela “originalidade” de relacionamentos prévios ou de estereótipos. Assim, pode-se perceber que Kiarostami acredita que as aparências podem nos enganar e confundir de maneira fatal.

O relacionamento construído por Ella e James envolve uma esposa carente, que sente falta da paixão do início da relação, e um marido distante e cético – ele não acredita que o casamento possa voltar a um estágio anterior. A personagem a que Ella dá vida quer ser uma cópia de casais em início de relacionamento, enquanto o de James acredita que a relação está sempre passando por transformações, negando um estado “original” de amor.

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Por meio de uma profusão de reflexos e espelhos, Abbas Kiarostami nos intriga ainda mais: imagens reais e virtuais se confundem, deixando o espectador com sensações e conclusões dúbias. Assim, Cópia Fiel é um filme aberto e que permite diversas interpretações distintas. Mas o que o diretor me parece evidenciar é que existe, sim, uma verdade – um “original” –, embora ela, por vezes, seja inacessível ou difícil de ser identificada, dependendo do contexto, da percepção do observador, entre outros fatores.


Bianca Pinheiro

Uma alucinada que tem medo de relacionamentos e derivados e que escreve coisas absurdas. Gosta de se esconder embaixo de um véu de timidez e introversão. Apaixonada pelas letras, é uma refém da escrita..
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