sintoma de cultura ii

Se tem uma ideia, troque. Se não ela empedra em você.

Marcelo Lopes

São interessantes todas as coisas. Complicado mesmo é nos apercebermos delas.

O que "OUVE" de tão ruim?

O que alguns chamam de ascensão da cultura popular tem um buraco muito mais fundo. Podados, direcionados, condicionados e, principalmente, mantidos inacessíveis a outros tipos de sons, os ouvidos da população estão cada vez mais distantes da música como veículo de crescimento humano por meio da fruição artística. A "engraçadinha" e contagiante "música-de-festa" ocupa o lugar do bom senso (e mesmo do que se poderia chamar de bom gosto), nos relegando a outras instâncias mais próximas do instinto que do feeling artístico que nos impele ao algo mais. Será mesmo só isso?


A onda do pesadelo cresce a cada dia. Nas esquinas, na porta dos bares, no vizinho, nos alto-falantes do clube, praticamente em todo lugar. É uma agressão sonora com a exata medida da falta de educação alheia. Manifesta-se, por exemplo, naquele carro que, desde às 7h30 da manhã de um final de semana, arrasta pelas ruas da cidade um reboque com quilos e quilos de equipamentos sonoros ligados à toda, tocando o último “sucesso” do arrocha, provocando uma experiência que, musical e qualitativamente inversa ao que nos sugere a primeira ária de Carmina Burana, do compositor Carl Orff, também nos causa estremecimento e nos escancara as portas do inferno. Quem já ouviu ou comparou os dois sabe do que estou falando.

Thumbnail image for show-do-tom-ze-no-sesc-em-ribeirao-preto-ingressos-lancamento-do-novo-cd-tropicalia-lixo-logico-fotos.jpgLevantei hoje num domingo preguiçoso - um dos muito raros nos últimos anos em que não trabalho - e me vi presenteado logo cedo com uma programação no Canal Brasil em que se exibia o documentário Fabricando Tom Zé, do diretor Décio Matos Jr.. Fui novamente tocado pela originalidade e capacidade criativa do nosso povo e, como resultado, fui atingindo em cheio pela força inquieta e visceral do músico baiano, que, não raro, consegue extrair de nós, minimamente, a mais completa estranheza do mundo. Daí, fiquei pensando: a culpa é nossa ou tem gente conspirando para que progressivamente a música-nossa-de-cada-dia fique pior? Não dá para levantar aqui quais são os termos preponderantes de uma música de qualidade sem que alguns queiram me linchar, outros concordar, outros tornarem-se indiferentes, me acharem conservador ou algo assim ponderado. Afirmo, no entanto, que existe um limite sensível – há muito avançado sobre a lógica do bom senso – nos dizendo que a coisa tá feia, tendendo a piorar muito no que se costuma chamar de popular na música comercial.

Há muito a se considerar: é preciso entender, por exemplo, que os gêneros musicais, por suas inúmeras variáveis, podem induzir facilmente qual perfil de música pode ser tida como uma boa ou ruim. Entre estas variáveis está, obviamente, o gosto pessoal. O bom para mim pode ser terrível para você e vice-versa. Arranjos complexos não necessariamente significam uma peça musical interessante, como também um arranjo simples pode demonstrar uma capacidade agregadora incrível, a exemplo do que fizeram Elvis Presley, Johnny Cash, Beatles (em início de carreira) e tantos outros ícones do rock. De tempos em tempos, e hoje cada vez mais, o mercado da música nos apresenta a bola da vez, perscruta-nos os ouvidos, constrói ícones e nos oferece, com campanhas de divulgação impossíveis de fugir, o gênero do momento, não importando qual seu conteúdo. Já recebemos nesta fórmula desde a Bossa Nova de João Gilberto e a Pilantragem de Wilson Simonal nos anos 60, passando pela Discoteca das Frenéticas na década de 70 e o Rock Nacional da Blitz, Barão Vermelho , RPM e Legião Urbana nos anos 80, à Lambada (anos 80/90), o Axé e o Sertanejo (no atual formato a partir dos anos 90) até chegarmos às versões universitárias de tudo quanto é gênero, como se a referência à uma graduação acadêmica os tornasse melhores do que de fato são.

Há quem diga que a música tem que dialogar com o público e ponto, e que este é um critério fundamental. Concordo. Mas com ressalvas também fundamentais. O nosso povo, o brasileiro, é reconhecidamente musical, vibrante, intuitivo para os sons mais diversos, dos mais melodiosos aos mais viscerais. Daí termos um leque de diálogo infinito. Desta forma, tudo o que nos vibra, pulsa e reverbera é, a priori, passível de nos empolgar num apelo instintivo, orgânico até a raiz. O que me leva a pensar em um mercado que privilegia e abusa disto para estimular um universo musical que nada acrescenta à criatividade humana, focado apenas no que há de mais primário na exigência do público, exclusivamente para gerar seu lucro. Na prática, lança mão, com fins econômicos, da releitura de uma coisa antiga, uma versão moderna do pão (substituído em geral pela cerveja) e circo (com entretenimentos similares e simbolicamente à mesma altura).

gallery_74296_3_223225.jpgEstamos falando de músicas despropositadas, construídas em onomatopeias e refrões infinitos, emendadas com algum ritmo pulsante, capazes de fazer mexer a cintura e os miolos de um sem-número de pessoas, lotando shows por todo canto do país. A essas peças “musicais” não importam quais as escabrosidades sem-pé-nem-cabeça que costumam tratar nem o tema da vez; circulam quase em sua totalidade sobre algum tema sexual, sem meias palavras. Tecnicamente, não se importam se é o teclado quem toca ou se o arranjo vale o espetáculo. Gêneros de vertentes unicamente mercadológica como o arrocha, o pagode, o funk, o sertanejo e adjacências (com obras de raras exceções), em última instância, nos sacodem pelo princípio mais básico do corpo humano, pondo de lado tudo o que nos diferencia do restante do reino animal: nossa capacidade de pensar, criar e reconhecer a criatividade, nossa e de outros. Não se importam de se posicionar à parte do que se pode chamar de feeling, a alma musical, aquilo que emerge da capacidade criativa da música e da letra (quando esta se faz presente), e nos fazer sentir algo além. Um legado artístico cujo espírito é nos intuir para além do simples efeito sonoro, fazendo levar para depois da experimentação auditiva o barro essencial que nos mantém em pé como seres de sensibilidade. Esta essência é o que nos desenvolve para um estágio posterior a qualquer batida rimada e sem conteúdo que nada nos acrescenta à vida.

Quando afirmo esta posição, falo de um lugar muito específico: sou educador e a raiz do meu trabalho é a fluência cultural. Por isso, vivo na mediação entre o que é sumamente popular (qualquer que seja sua manifestação) e aquilo que desenvolve o ser humano em todas suas instâncias. Um pensamento que, desta forma, entra em choque com um mundo limitador de pessoas, propagador de manifestações que nada desenvolvem a não ser doses cada vez maiores de uma conveniente falta de educação, que perpetua programas de TV emburrecedores, músicas cada dia mais acéfalas, discursos cada vez mais incoerentes e realidades cada dia mais cruéis em espetáculos diários como meras estatísticas de mercado.

Ariano_Suassuna_redimensionada1.jpgSe pensamos em crescer como seres humanos nosso parâmetro é sempre acima do atual estado em que nos encontramos. Isso redunda naquilo que praticamos no dia-a-dia, por isso avalio diariamente o que ouço e o que nos oferecem para ouvir, aquilo que normalmente se ouve nos celulares dos nossos pares, no som dos seus carros e casas, nos espaços que frequentam, nas conversas que entabulam. Filio-me com muito pesar a Frank Zappa que dizia que “a maioria das pessoas não reconheceria uma música boa se ela viesse e as mordesse na bunda”, principalmente por se entregarem a uma preguiça mental como se essa fosse a mais recente moda da estação. Mas, ainda assim sou mais a fim ao nosso grande Ariano Suassuna que afirma que “a massificação procura baixar a qualidade artística para a altura do gosto médio. Em arte, o gosto médio é mais prejudicial do que o mau gosto... Nunca vi um gênio com gosto médio.” E ainda acrescenta, “o otimista é um tolo. O pessimista, um chato. Bom mesmo é ser um realista esperançoso”.

Assino embaixo.

Enfim, Tom Zé me acordou hoje fazendo um sonoro sacolejo na alma.

Publicado originalmente em: http://sintomadecultura.blogspot.com.br/2013/03/o-que-ouve-de-tao-ruim.html


Marcelo Lopes

São interessantes todas as coisas. Complicado mesmo é nos apercebermos delas..
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