sintoma de cultura ii

Se tem uma ideia, troque. Se não ela empedra em você.

Marcelo Lopes

São interessantes todas as coisas. Complicado mesmo é nos apercebermos delas.

Receita de Adjuntório

O Adjuntório é um prato coletivo e por isso mesmo não pode ser feito sem sorrisos. Partilhado, vivenciado, feito para ser degustado ao sabor da amizade, é mais que uma receita física, é uma feitura de lembranças bem cozidas.


988694_10201701956889909_968638354_n.jpgQuem conhece sabe do que estou falando: as peripécias culinárias da dona Luciana Oliveira, minha digníssima e amada, são memoráveis não apenas pelas delícias que instigam o paladar, mas pelo cuidado com que são preparadas e executadas, feitas para serem mais vividas que puramente consumidas. São fruto de um gostar de fazer, recheadas de receitas com detalhes que ficam, ingredientes meticulosos que, mais do que o sabor somente, trazem lembranças doces – ou salgadas, no melhor do termo alimentício – e perduram registradas como parte daquelas reminiscências legais que todos nós queremos e gostamos de ter.

Pois bem. Lapidado cotidianamente em casa pelo entusiasmo e pelo gosto refinado da minha mulher, lá vou eu com minha própria receita, que compartilho aqui, usando de ingredientes poderosos, temperos simples, mas perenes, e especiarias refinadíssimas que só são possíveis porque trazem consigo um pouco das histórias de cada um. Como, aliás, é imprescindível que seja.

1001716_10201719756254882_1526243922_n.jpgSegundo especialistas na área, dos quais destaco meus ilustres amigos Leu Couto e Alisson Menezes, o Adjuntório é um prato coletivo e por isso mesmo não pode ser feito sem sorrisos. Seu principal ingrediente é a partilha. Também não pode faltar abraços, temperados a gosto. Tem como propriedades fundamentais nos fazer lembrar por muito tempo dos seus sabores, dos sons e dos prazeres que proporciona e, não raro, trazem pitadas certas de emoção. Os adjuntórios são, por si mesmos, banquetes em que o tamanho é o que menos importa. Seus recheios são sempre fartos e, à mesa – ou mesmo à sala ou à cozinha – deixam os que os degustam extasiados e salivantes. Os que deles não provam ficam babando apenas.

Nem sempre é preciso preparar com tanta antecedência. É possível até que seja feito na hora mesmo, ou por uma ligação ou recadinho, um dia ou dois antes, tanto faz.

Sua receita e modo de preparo são básicos e é preciso que todos conheçam: - Amigos à gosto - ligue, mande e-mail, chame pessoalmente, o importante é a presença. Que tragam o espírito desarmado, solidário e, já saibam de antemão que, no caldo do adjuntório, é possível que riam muito, se elevem as emoções e que essas sensações são espessas, mas leves. Por isso, cuide de manter o ambiente agradavelmente aquecido. Observação: amigos de amigos também podem ser acrescidos, de modo sempre a somar no teor.

483943_10201719726014126_1619497822_n.jpg- Aquecimento dos temperos - cada um traz alguma coisa: vinhos, salgados, bolos, entradas, embutidos, pudins, cervejas, biscoitos caseiros. Tragam o que gostarem de comer e o que achem que os outros gostem. É de comer e é bom, tá valendo. Arregimente tudo num lugar acessível à mão e deixe os olhos apreciarem o que a boca dará conta tranquilamente. Observação: se o dono da casa der o ok, desmastreie a bandeira da vergonha e pode abrir a geladeira para pegar a bebida. No adjuntório não se usa garçom; no máximo, voluntários. - O converseiro – Fundamental. Como dizia Platão: “é na fofoca que a coisa acontece”. Todo mundo junto, ou em grupos, ou espalhados pelo ambiente, o importante é que dê caldo.

- Tempo de cozimento – Vai até onde der fôlego. Há notícias de adjuntórios que duram semanas. Normalmente nas férias. Como não tem restrição de idade – e o ideal é que se respeite o horário das crianças – o tempo de feitura pode ser lento e gradual, para que se atinja, por exemplo, o amanteigar dos olhos ao som de boa música. De outra sorte, pode ter picos de fervura, o que depende muito do teor do papo, das gargalhadas, das conversas de canto de orelha que geram alguma coisa depois, ou da sensação de euforia que só a alegria de estar junto proporciona. O adjuntório funciona bem de muitos modos e cada novo preparo pode trazer sabores diferentes pela combinação dos seus ingredientes. Observação: a temperatura é variável, mas, pessoalmente, só não gosto quando esfria.

1005219_10201719458367435_1150064943_n.jpg- No prato – na verdade não precisa ser no prato, pode ser em qualquer lugar que caiba gente. Importantíssimo é a verdade do ato, que deve ser servido a todos e bem recebido por todos, sem distinção. O adjuntório é o desdobramento de uma tradição antiga, fornada no tempo certo pelas receitas de amizade e, por isso mesmo, tem sabores distintos, mas uníssonos. De forma que, entregue aos seus degustadores, todos são ao mesmo tempo, alimento uns dos outros. (Você pensou sem-vergonhice que eu sei).

Por fim, este pequeno receituário é um agradecimento pessoal a um tempo de partilha em que os que se incluem sabem o quão espesso é este nosso caldo. Sei que muitos que leem isto também sabem qual é o gosto de um adjuntório bem feito, seus efeitos para a alma e para o corpo. E sabem também que tudo o que é bom mesmo não pode ser sozinho. Tim-tim.

Texto originalmente postado em: http://sintomadecultura.com.br/blog/receita-de-adjuntorio/


Marcelo Lopes

São interessantes todas as coisas. Complicado mesmo é nos apercebermos delas..
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