sintoma de cultura ii

Se tem uma ideia, troque. Se não ela empedra em você.

Marcelo Lopes

São interessantes todas as coisas. Complicado mesmo é nos apercebermos delas.

O Café Suspenso e o desafio duplo

Descubra os desafios de uma mudança cultural e social por detrás de uma ideia solidária. Confira.


download-2.jpgQuem já assistiu ao filme “A Corrente do Bem”, dirigido em 2000 por Mimi Leder, com Haley Joel Osment (O Sexto Sentido), Kevin Spacey (Beleza Americana) e Helen Hunt (Melhor É Impossível), sabe bem a impressão e o impacto de uma boa ideia. No filme, Spacey é um professor que faz um desafio aos seus alunos: devem ir para casa e propor no dia seguinte uma ideia que ajude a mudar o mundo. A ideia do personagem de Osment, que se torna o centro de toda a trama, é surpreendentemente simples: cada um deve fazer três favores realmente importantes para três outras pessoas, quem quer que sejam, que devem retribuir o gesto e assim por diante.

Recentemente encontrei o seguinte texto na internet, com o sugestivo nome de Cafés Suspensos. O relato, real ou não, vale pela mesma impressão do gesto possível:

Entramos num pequeno café na Bélgica, um amigo e eu, e fizemos o nosso pedido. Enquanto nos aproximávamos da nossa mesa duas pessoas chegaram e seguiram para o balcão: “Cinco cafés, por favor. Dois deles para nós e três suspensos”.

Eles pagaram a conta, pagaram em dois e saíram. Perguntei ao meu amigo: “O que são esses cafés suspensos?”. Ele me respondeu: “Espera para ver”.

62601_10201283327703668_109469990_n-300x198.jpgAlgumas pessoas mais entraram. Duas meninas pediram um café cada, pagaram e foram embora. A ordem seguinte foi para sete cafés e foi feita por três advogados – três para eles e quatro “suspensos”. Enquanto me perguntava qual era o significado dos “suspensos” eles saíam. De repente, um homem vestido com roupas gastas, com aspecto de um mendigo chega na porta e pede cordialmente: “Você tem um café suspenso?”

Resumindo, as pessoas pagam com antecedência um café que servirá para quem não pode pagar uma bebida quente. Esta tradição começou em Nápoles, mas espalhou-se por todo o mundo e em alguns lugares é possível encomendar não só cafés “suspensos”, mas também um sanduíche ou refeição inteira.

Achei a ideia genial. Cá entre nós, brasileiros, formados como um povo cujos elementos constitutivos desde há muito incluem valores como relações de favor, corporativismos e uma boa dose-nossa-de-cada-dia de corrupção nas pequenas coisas (não se engane quem acha que furar fila ou jogar papel no chão não prejudica ninguém), pensar em por esta proposta em prática é um exercício duplo de generosidade. Primeiro, para com quem realmente precisa. Não parece muito, e de fato não é, mas é um pequeno aceno que pode abrir portas maiores. Segundo, para com nós mesmos, um povo ainda muito longe de cumprir suas potencialidades, cercado de representantes viciados nos termos do jogo de favores (vide o que se pretende e que se faz com os mensaleiros), lesados em direitos básicos, como a saúde e a educação, sem as quais pensar na mudança é sempre uma queda de braço entre a consciência e a urgência de cada um.

cafe.pngFico aqui imaginando esta ideia simples funcionar sem que alguém ache nisto outro jeito de lesar o próximo transformando dez cafés pagos antecipadamente em cinco ou fazendo publicidade do estabelecimento como um lugar de “consumo solidário” para lucrar mais. Ou mesmo quem não queira aderir à proposta pelo simples fato de não confiar que seu gesto realmente chegue a quem se destina, já que nossa história cotidiana mostra que nossos impostos visivelmente têm outros usos pela máquina do Estado que não o retorno social.

Difícil até escrever algo tão sórdido e pessimista, mas verdadeiro: quem se arrisca a ser solidário no Brasil? Mas, de fato, este é o desafio real da ideia… é não sermos uma simples corrente do bem, um roteiro fácil de filme, mas convertermos em postura a clara consciência de que tipo de material sólido podemos ser nos elos desta corrente. Nisto consiste a mudança e a generosidade para com o outro e para conosco.

Bom café para todos nós.


Marcelo Lopes

São interessantes todas as coisas. Complicado mesmo é nos apercebermos delas..
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