sintoma de cultura ii

Se tem uma ideia, troque. Se não ela empedra em você.

Marcelo Lopes

São interessantes todas as coisas. Complicado mesmo é nos apercebermos delas.

Nosso cinema se despede da “mãe”

Aos 95 anos, morre D. Lúcia Rocha, mãe do cineasta Glauber Rocha e aquela a qual todo o nosso cinema pede a benção.


Num agosto de 1981, sob o abraço solidário de um sem-número de pessoas, entre amigos, admiradores, críticos, companheiros de pensamento e de arte, todos embalados pelo discurso comovente de Darcy Ribeiro, descia ao túmulo o cineasta Glauber Rocha. Naquele dia, envolta numa dor ainda maior que a dos demais, começava surgir na cabeça de uma mulher uma missão: erguer ao nível das vistas de todos quanto possíveis uma parcela fundamental da memória do cinema brasileiro, contida ou circundada pela obra de Glauber.

Esta foi até hoje, 03 de Janeiro de 2014, uma sexta-feira, a luta da conquistense Lúcia Mendes de Andrade Rocha, mãe do cineasta, autor de “Deus e o Diabo na Terra do Sol”. Na manhã deste dia, assim como seu filho, toda sua obra passou à posteridade como uma herança preciosa.

D. Lúcia nunca foi uma cineasta. Também nunca teorizou sobre o cinema como nome pomposos ou metodologias complexas, mas a força incansável com que se dispôs a reunir a obra do filho – dispersa nos quatro cantos do planeta – chamou a atenção pelo vigor com que ia a campo. Tornou-se uma referência, um receptáculo de experiências muito maior que qualquer academia pudesse, por si, mesma trazer. Suas mais de três décadas de busca como guardiã de um legado essencial redundaram em centenas de fotos, rolos de filme, textos inéditos, artigos, publicações sobre o cineasta, digitalizações, equipamentos e uma infinidade de materiais, patrimônios físicos e intangíveis, afetivos e históricos que, reunidos no Tempo Glauber – fundado por seu desejo e mantido pelo afinco de seus familiares – passou a ser o centro referencial da obra do artista em todo o mundo.

dmjweqsef4voo8rc6dooscxnk.jpg

Quem conheceu a senhora pequenina, de sorriso sagaz, determinação inabalável e língua afiada na defesa das suas ideias, soube, logo ali, o vê-la, de onde saíra a genialidade de Glauber. Ícone da persistência de uma memória que a duras penas foi permanecendo num país cuja longevidade da lembrança institucional é por demais relativa, D. Lúcia atingiu um status maior do que a de ser a mãe do internacional Glauber Rocha: se é que é possível dar algum parentesco nestes termos, Lúcia Rocha pode ser considerada, em muitos sentidos, a mãe do cinema brasileiro. Alguém cuja dedicação integral à memória do filho querido trouxe consigo um recorte imenso de um Brasil cinematográfico como poucos souberam fazer com tamanha afeição, sem ao menos ter, per si, feito um único filme.

No entanto, as lembranças de Lúcia Rocha foram registradas em filmes como “A Mãe” (1998), de Fernando Bélens e Humbelino Brasil, narrada nas particularidades da mulher e da guardiã; e em “Abry” (2003), de Paloma Rocha e Joel Pizzini, contando sobre sua imensa força de vida ao enfrentar, em idade bastante avançada, mais uma invasiva cirurgia, na qual dizia sem medo: “Abre, abre, abre”, ao que, o título, trocado, substituiu o “e” pelo “y”, como um recurso artístico. Lembranças que também ficaram mimetizadas às do filho, como quando dizia que vira o Cinema Novo nascer na sala da sua casa, ou quando contava rindo que Glauber costuma escrever em duas máquinas de escrever ao mesmo tempo.

Decerto, não há como medir o tamanho da ausência de ser humano algum. Mas nas medidas que nos cabem supor, não se há uma fita métrica capaz de nos salvar um sentido de cinema com dignidade, essa métrica é a de pelo menos umas duas dúzias de Lúcias Rocha.

Respeitos à família e aos amigos. Saudades à mãe do nosso cinema.


Marcelo Lopes

São interessantes todas as coisas. Complicado mesmo é nos apercebermos delas..
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/cinema// @destaque, @obvious //Marcelo Lopes