sintoma de cultura ii

Se tem uma ideia, troque. Se não ela empedra em você.

Marcelo Lopes

São interessantes todas as coisas. Complicado mesmo é nos apercebermos delas.

Breve Tratado do Pensamento Curto Brasileiro

O Pensamento Curto está entre nós. Com os nossos vizinhos (do som alto), no trabalho (entre aqueles que reclamam muito e contribuem pouco), nos colegas de boteco (que brigam pela democracia, mas gostam de sair sem pagar) e até na escola (que faz vista grossa pra o aluno que não aprende, mas tem os pais que garantem o pagamento mensal e a quase obrigatória aprovação).
Mas, afinal quem são os Curtos?


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Os Curtos fazem parte do nosso dia-a-dia há muito tempo. Estão espalhados pelo mundo e aqui no Brasil participam de forma marcante em variados momentos da nossa história. Em certas décadas, ou períodos até mais longos, é comum que entrem em evidência, façam algazarra, ocupem espaços públicos e se manifestem ostensivamente acerca de/ou por cima de quem quer que seja, independente do que eu, você ou qualquer coletividade (maioritária ou não) ache sobre isso.

Não há como quantificar sua presença entre nós. Os últimos recenciamentos do IBGE, ainda que tentassem agregar critérios mais específicos para melhor tratar este perfil, classificaram-nos apenas como parte do censo comum. Também não é possível identificar os Curtos somente por raça, etnia, classe ou orientação sexual, embora haja uma concentração visível em certos grupos sociais acostumados a mandar, tendo ou não autoridade constituída, recursos materiais, morais ou inteligência para tanto. Aliás, a inteligência é um fator determinante para reconhecer um Curto. Nele, há um claro falseamento das propriedades intelectuais, mas que é facilmente desvelado quando se tenta estabelecer com ele algum tipo de conversa: não há papo possível. Já que seu mundo é dado e pronto, a relação do Curto com a noção de complexidade das coisas é quase impossível, o que torna inviável a discussão.

Deve-se observar, com toda compreensão que nos é possível, que os Curtos são conhecidos pela manifestação de alguns problemas endêmicos, que se refletem nas dinâmicas de sua convivência social: o Curto tem dificuldade de ouvir qualquer um além de si mesmo e, efetivamente, tem uma visão muito curta do todo, o que agrava a relação com o outro social. Há que se ter muita paciência ao lidar com eles.

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Sobre o Pensamento Curto

Na ausência de um termo adequado, usamos “pensamento” mais como uma simples nomeação e menos como um conjunto de ideias, uma vez que as ideias são algo raro entre eles. O Pensamento Curto, embora seja uma classificação paradoxal, serve como referência para uma série de comportamentos que nos ajudam a identificá-los ao nosso redor.

Segundo estudiosos, o mito fundamental do Pensamento Curto são as palavras “sim” e “não”, acrescidas, no limite do seu potencial de resposta social, de uma única e exclusiva conjunção gramatical que corresponde a toda a sua explicação do mundo e das coisas. Ou seja, de um Curto somente é possível obter um “porque/ sim” e um “porque/ não”. As variações dessas respostas podem aparecer das maneiras mais criativas (normalmente envoltas em palavrões, ódios espumantes e argumentos desarticulados), muitas vezes direcionadas para outros grupos sociais - todos eles culpados de serem diferentes - ou individualmente, em pessoas que também representam o contrário às suas opiniões ou posturas. As razões postuladas por eles nessas contendas são normalmente baseadas no uso do “porque/sim” quando culpabilizam alguém e “porque/ não” quando são culpabilizados.

Assim, embora se encontre, até mesmo com certa facilidade, pessoas de Pensamento Curto portando diplomas em diversas áreas, a capacidade de discernimento do seu lugar no mundo tem graves problemas, advindos, muitas vezes, de um ensino fundamental mal resolvido e bastante conservador. Por acreditarem que o que importa no mundo, na verdade, são eles próprios, os grupos de Curtos não entendem a coletividade e, portanto, não são estritamente coesos; valem mais como ajuntamentos pouco coerentes entre si. Daí a dificuldade tabular de qualquer estudo empírico com menos de 275 opiniões diferentes em agrupamentos de menos de cinquenta indivíduos de Pensamento Curto.

É possível, no entanto, estabelecer um quadro geral da sua conduta-padrão, descrita nos círculos acadêmicos atuais como Banalis Burguesis Bestialis, ou, como é comumente conhecido, Fator de Comportamento BBB. Sua maior evidência ocorre em redes sociais, manifestações de rua (ambientes de difícil entendimento de pautas), ambientes político-partidários, reuniões de condomínio e em rodas de opinião em família. Grosso modo, tabula-se a quantidade de ofensas vezes os erros de português, dividido pelos artigos da Constituição Federal infligidos.

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A Moralidade Curta

O pensador Leonardo Boff costuma dizer que a Ética é como uma casa e a Moral é a maneira como se arruma esta casa. A moralidade Curta, que hoje vemos novamente em vigência, se preocupa mais em garantir da escritura da casa, já que a arrumação é imutável e não deve tirar nenhum móvel do lugar. De resto, a nós, os demais do mundo, cabe-nos apenas responder que dia vamos chegar para a faxina.

Filosoficamente, a origem da moralidade Curta é atribuída a um lugar mítico conhecido como Geral. Em Geral, tudo está certo. Em Geral, nada precisa mudar. Em Geral, a harmonia impera. Em Geral, quem não faz parte do Consenso Geral é ladrão, viado, vagabundo, corrupto ou suspeito. Em Geral, quem não se adequa deve se acomodar melhor em Problema, lugar de situações não resolvidas, mas de campinas promissoras, vizinha de Dúvidas e Outras Ideias, lugares de pessoas mais diversas, mais criativas e reflexivas, bem mais afastados do que pensam em Geral. Aliás, vale dizer, em Geral, entre outras coisas, se ganha muito dinheiro com o agronegócio, as pessoas são educadas pelos meios de comunicação e teme-se muito o Apocalipse, trazido um anticristo com as tiaras das ideias de Paulo Freire.

Embora façam parte da vida social como todos os mortais, os Curtos não se enxergam assim. Quando não se apregoam entre os exclusivos detentores das chaves dos céus, impõem-se como resposta para toda em qualquer crise econômica e política possível, substituindo-as por sua visão Curta do mundo. Acreditam que a corrupção, assim como o zica vírus e a dengue, é culpa somente de um inseto nascido de geração espontânea; entendem que a escola é para o mercado de trabalho assim como a democracia é para todos os seus. A Moral Curta condena o sintoma porque não se enxerga (nem quer enxergar) parte da causa; produz e propaga músicas monossilábicas, esvaziadas de ideias, e acredita que Chico Buarque é um desserviço para cultura do país.

A Moralidade Curta não tem nem passado, mas propõe um futuro sombrio. Por ser curta e imediata, não tem história. Seus ídolos e modelos são e estão sempre em Geral, nunca podem ser Problematizados ou ter origem em Outras Ideias. Seus heróis se afinam, sem reconhecer isso, com o totalitarismo, o fascismo, a ditadura e a prepotência porque, no pensamento curto, eles significam a ordem que os problemas a caminho de soluções coletivas e as reflexões não causam. Felizmente, o que se espera e sempre se discute, nos vários momentos da nossa história, é a curta vida aos de Pensamento Curto.

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Marcelo Lopes

São interessantes todas as coisas. Complicado mesmo é nos apercebermos delas..
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