ISRAEL DE SÁ

Desenho letras sobre folhas que se aglutinam em palavras inteligíveis, tomam vida e sonham

Ser indiferente, os artistas do desdém

Muitos tem agido assim, com louvor na arte da indiferença. Possuem PhD em menosprezar o outro sem proferir uma vírgula, apenas na mudez, no sorriso sem dentes, na tela vazia onde se lê apenas o “visualizado há 5 dias”. Acho que tudo poderia ser diferente se apenas uma palavra fosse posta em prática, a gentileza.


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Você envia uma mensagem para alguém. Vê que ela foi visualizada, a pessoa do outro lado da tela de LCD ou LED não lhe responde. Mas por quê? O e-mail enviado e nunca respondido – você pensa “o que eu disse de errado?” Nunca usamos a indiferença, maquiada pela tecnologia, para destruir tantas expectativas como atualmente. Não é o ódio pelo outro que desmonta seu sorriso tão duramente costurado. Não é a ofensa que apaga do coração do próximo a centelha de uma esperança qualquer. O que torce a alma, aquilo que pode afogar os sentimentos mais básicos de um coração chama-se indiferença, a arte do desdém.

Ignorar aquele que nos escreveu uma mensagem, que deixou um recado na caixa postal do telefone ou que nos enviou um 'olá' pelas redes sociais da vida é de uma maldade só comparada com um tapa de cinco dedos na face. Aliás, o desdém é estapear sem o uso de dedos, é silencioso e não faz uso de músculos, é doído como um soco mas não deixa marcas. Nos dias atuais é cuspir sem saliva, no lugar, cuspimos bits e bytes.

Quem pratica a indiferença possui uma veia artística! Esse tipo de pessoa costuma pintar em matizes opacas no rosto do desdenhado a palavra 'desumanidade'. Pois o que seria a indiferença senão a desconstrução da humanidade alheia. Quem pratica a indiferença, o “te respondo quando me der na telha e olhe lá” faz do outro qualquer coisa, menos ser humano. É como estar em uma sala a sós com alguém e ser olhado por sobre os ombros para aquilo que está atrás de você, ali você não existe, torna-se nada. O desdém, mudo, sem palavras, o força a se ver como um alguém que não existe. Você foi desconstruído, pedaço a pedaço até se tornar apenas um nome fácil de ser esquecido, apagado da agenda, excluído da rede, deletado e morto apesar de caminhar.

Quem já leu Franz Kafka sabe o que é ver a indiferença tomar ares épicos. Tomo como exemplo “O Processo”. Em resumo, na obra, um homem é processado sem saber o porquê e mesmo procurando durante sua sina entender o crime que cometeu, sem ter cometido crime algum, ele recebe apenas amenidades e conveniências típicas do menosprezo pela parte de seus detratores, amigos, família, enfim, todos. Há visivelmente durante a obra uma desconstrução de sua personalidade até sobrar nada mais que algo, apenas um algo, não alguém. O final do livro, ademais, é chocante e causa “convulsões emocionais”.

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Não é preciso morrer de amores por alguém que lhe escreve um 'oi' e você por educação lhe retribui com outro singelo 'oi'. Nunca soube de alguém que morresse por ser gentil, educado. Educação não se restringe em perfeita gramática. Sorrir para alguém que lhe sorri não fará seus dentes caírem. Responder com uma mensagem de gentileza não fará seus dedos apodrecerem sobre o teclado. Sejamos gentis, nem que seja para dizer “gostaria que você não me escrevesse mais, ok? Abç.”, acredite, isso soa mais generoso do que o silêncio da indiferença.

A multiplicidade de plataformas que nos conectam, de aplicativos que tentam nos aproximar, carregam em seu DNA, como se projetados de fábrica, o recurso do desdém. É óbvio que viver dando corda para aquele chato que a todo custo quer sair com você não é uma boa ideia. Mas ainda pior é silenciar diante das conexões virtuais. Estar conectado com todos é ao mesmo tempo não estar com ninguém. Não são poucos que abdicam da vida social para viver atrás de um avatar que lhes garante um certo anonimato. Pois se pensava que estando assim haveria liberdade para ser alguém livre da rejeição. Ledo engano. Estamos todos mergulhados, alguns mais outros menos, no lago da decisão alheia. Ele vai me responder? Ela vai me ligar? Poxa, não custa nada. E assim dependentes de palavras vindas do outro lado da tela, permanecemos ansiosos e reféns da insignificância.

Tomo livremente como exemplo algo que foi fantástico aos meus olhos. Enviei como mala direta por e-mail algumas dicas de filmes e livros para várias pessoas, não se espera resposta nessas ocasiões, mas qual não foi minha surpresa quando uma colega minha, de livre vontade e com sua educação peculiar me respondeu agradecendo as dicas.

É assim, com pequenos gestos, que parecem insignificantes que a sociedade muda. Se o desdém, a indiferença, a insensibilidade podem matar almas, gestos de educação podem revigorar as mesmas, e acredite, isso vale mais que mil beijos.


ISRAEL DE SÁ

Desenho letras sobre folhas que se aglutinam em palavras inteligíveis, tomam vida e sonham .
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