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"É preciso imaginar Sísifo feliz"

Otávio C. Medeiros

O Debate Ambiental em Noé (e algumas outras coisas)

Apesar de todo o debate a respeito do filme, o aspecto mais interessante abordado pelo mesmo ainda não recebe a atenção que merece.


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Atenção, o texto pode conter spoilers.

Devido às diversas críticas e indignações apontadas não só por setores mais religiosos como também por ateístas, resolvi assistir ao recém-lançado filme Noé e me surpreendi com o debate ambiental ecocêntrico apresentado no mesmo, descobrindo posteriormente que o diretor do filme alega que Noé foi o primeiro ambientalista.

No quadro Haters of the Lost Ark de seu programa de notícias/comédia Daily Show, Jon Stewart responde às críticas dos setores religiosos ao filme, mostrando que estes ou não assistiram ao filme ou não leram a Bíblia considerando os argumentos que afirmam que o filme mostra fatos que não são representados na Bíblia quando na verdade são. Existem sim elementos que não constam nas passagens bíblicas, como os anjos caídos e o perdão de Deus para com os mesmos.

Pelo outro lado, os ateus são contrários ao filme ou às obras religiosas em geral, por admitirem que se tratam de ficções. Entretanto isto não pode ser tomado como razão suficiente para menosprezar algo. É possível lembrar, por exemplo, das previsões da Asimov em seus mundos fictícios que hoje se tornaram realidade, de modo que isso basta para lembrar que as ficções podem contribuir para um debate, quer sobre o presente, quer sobre o futuro. Também importante ressaltar que hoje vemos iniciativas muito próximas à idéia da Arca, como o Banco Mundial/Global de Sementes de Svalbard e os projetos Genoma e que ambos projetos são extremamente importantes em relação a biodiversidade, o que torna o tema desta ficção bastante contemporâneo.

svalbard.jpg Entrada do Banco Mundial/Global de Sementes de Svalbard

O filme apresenta duas formas de vida/organização social: uma através dos descendentes de Caim, outra pelos descendentes de Set. Os primeiros são mostrados como uma civilização industrial estritamente antropocêntrica que consome desenfreadamente os recursos, destrói ecossistemas e que (pelo menos seguindo os valores atuais) desrespeita os direitos humanos de seus membros. Portanto tais atitudes desrespeitam Deus por desrespeitar Sua criação. A outra, composta por Noé e sua família, representa uma resistência à primeira e adota uma visão de mundo mais ecossistêmica, que fica explicita no ensinamento transmitido por Noé à seu filho de se retirar apenas aquilo que é necessário, possuindo respeito por espécies não humanas assim como humanas (pelo menos da mesma linhagem). Infelizmente parece que houve uma falha na tradução da última fala do filme, onde “embrace the Earth” foi traduzido como “encha a Terra”, o que pode se tornar um problema (talvez não tão grave) para tal entendimento.

Admite-se que Noé se torna o escolhido divino por apresentar posicionamentos e comportamentos éticos alinhados ao do Criador, porém não recebe todos os detalhes sobre como deve proceder em relação ao iminente dilúvio. Noé ao construir a Arca não admite a entrada de nenhum humano da linhagem de Caim (exceto uma filha sua que fora adotada quando criança) por acreditar que estes não são capazes de se redimir, que não seriam perdoados por Deus. Com isso ele desconsidera o fato tanto de que sua filha adotada foi capaz de se redimir assim como, no filme, os próprios anjos caídos também o foram. Ele também se questiona se deve manter a humanidade através de sua linhagem ou se deveria abrir mão de confiar nela, pois esta já havia traído o Criador. Pode-se associar este Noé aos atores envolvidos (ou parte destes) nas questões socioambientais, pois estes reconhecem os inúmeros problemas existentes atualmente, se deparam com cenários futuros desastrosos (o dilúvio), reconhecem a necessidade de mudanças na nossa sociedade (descendentes de Caim) e atuam como podem dentro (ou o quanto for possível fora – assim como Noé) do sistema, mas que também não sabem todos os detalhes para uma resolução ótima dos problemas.

ego-eco.jpg

Este debate ambiental poderia ir mais além, entretanto isso seria incompatível com a mitologia católico-cristã (e talvez ocidental em geral) devido a alguns pontos. Imagino que o principal seja o fato de que Deus criou o homem a sua imagem e semelhança, portanto ou Ele é um ser antropomórfico ou os humanos exclusivamente são seres teomórficos. Em qualquer uma das hipóteses podem ser admitidas visões antropocêntricas mais danosas. Como o próprio filme remonta ao Pecado Original, pode-se lembrar por exemplo que não faria sentido que todos os seres vivos sofressem retaliações pelo pecado cometido por uma única espécie dentro de uma visão teológica não especista. Assim, mostra-se o quão importante foi e é uma proposta teológica de fato ecossistêmica como por exemplo o Espinosismo, onde não pode ser apontada uma distinção entre Criação e Criador. Vale lembrar que os principais nomes da Ecologia Profunda e Ecosofia admitem a importância da influência espinosista em seus trabalhos.

Desta forma, é importante notar que o questionamento de valores e tradições, sendo estes religiosos ou não, são necessários aos avanços das questões ambientalistas. Na medida em que os valores religiosos apresentados sustentam o antropocentrismo, estes constituem um obstáculo que deve ser encarado no sentido da superação de dicotomias tais como: criador/criação, natural/artificial, homem/natureza.


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