sob o boné.

do mundo em preto-e-branco e outras melancolias

Raphael Cardoso

Raphael mora em Nova Friburgo/RJ, onde formou-se em Letras. Tem na nostalgia dos dias cinzentos e no senso de solidão da cidade grande a inspiração para seus textos, relatos melancólicos da vida em preto-e-branco.

de casa nova

Do ímpeto de escrever à dificuldade de domar as palavras - uma pequena introdução para essa nova morada dos meus textos.


hopper.sun-empty-room.jpg Sun in an Empty Room, Edward Hopper

Não sei exatamente quando essa coisa de escrever nasceu em mim. Nas minhas mais distantes reminiscências, lembro-me muito pequeno, sequer dono de todos os fonemas ainda, correndo atrás de minhas irmãs e pedindo-lhes que escrevessem histórias que gostaria de narrar. Serviram-me de copistas, embora a contragosto. Alguns anos depois, lembro-me de atacar de contista para meus amigos de escola; o estilo, entretanto, era falho, infantil, tolo; as narrativas, óbvias e sem graça.

O amadurecimento de minha escrita veio há pouco. Talvez influenciado pela quase-concluída faculdade de Letras, o contato acadêmico, ou pelo hábito de uma leitura mais voraz e constante, notei-me mais habilidoso com as questões que envolvem nossa amada e ardilosa língua portuguesa. Não obstante, sinto-me ainda distante de onde gostaria de estar. As palavras são, para mim, difíceis de adestrar, escorregadias, traiçoeiras - uma estrada nebulosa de curvas acentuadas. Não gosto do que escrevo, para ser mais preciso e sincero. Soa-me medíocre e redundante, quando não indigno de terem sido juntadas tais palavras para dar forma a um nada petulantemente chamado de texto.

Por que, então, escrever? O que incentiva um hábito que, na maioria das vezes, tem como resultado o fracasso, o objetivo não alcançado, o simplório?

Talvez seja mais forte do que eu, esse ímpeto de transpor para as palavras escritas a bagunça que se passa em minha mente. Talvez não tenha sido em vão que, no menininho de seis anos que corria pelo quintal de casa atrás das irmãs, tenha nascido esses prazer de contar histórias, de criar mundos, de recriar a realidade conforme bem entendesse. E, principalmente, talvez o que resta em mim daquele menino e daquela forte vontade seja ao que se pode aferir algum valor dentre as coisas que escrevo.

Hoje, pela manhã, encaixotei minhas palavras e ideias com melancolia e me mudei para esta página no obvious. Trouxe comigo essa forte luta interna entre a decepção e a necessidade em relação à escrita. Trouxe, acima de tudo, a vontade de poder transformar - o que quer que seja, da forma que for - algum detalhe ínfimo na vida das pessoas que os leem.

Decoro, portanto, neste momento, as paredes desta nova casa com minhas primeiras palavras. Sintam-se bem-vindos todos vocês. Já sirvo um café.


Raphael Cardoso

Raphael mora em Nova Friburgo/RJ, onde formou-se em Letras. Tem na nostalgia dos dias cinzentos e no senso de solidão da cidade grande a inspiração para seus textos, relatos melancólicos da vida em preto-e-branco..
Saiba como escrever na obvious.

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