sob o boné.

do mundo em preto-e-branco e outras melancolias

Raphael Cardoso

Raphael mora em Nova Friburgo/RJ, onde formou-se em Letras. Tem na nostalgia dos dias cinzentos e no senso de solidão da cidade grande a inspiração para seus textos, relatos melancólicos da vida em preto-e-branco.

Vernon, a cabana e a solidão

Dos planos interrompidos de hibernar por todo o inverno, a poesia dos versos sofridos de Justin Vernon, o homem por trás do Bon Iver, compuseram "For Emma, Forever Ago", um dos álbuns mais importantes da última década.


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Ninguém podia acusá-lo de não ter tentado.Com o fim de sua primeira banda e, simultaneamente, de um relacionamento, depois de algumas tentativas de álbuns solos, o jovem Justin Vernon encontrava-se desolado, sem qualquer perspectiva para o que seriam os próximos anos. Precisava de um intervalo, de pegar o que restara, realinhar, restabelecer as metas de sua vida. Era inverno rígido nos Estados Unidos quando, completamente só, mudou-se para uma cabana de madeira nas florestas de Wiscosin. Não havia qualquer intenção artística naquilo: seu plano era apenas de hibernar. Mas, feito uma epifania, algo despertara em Vernon, alimentado pelo forte senso de solidão, pelo frio, pelas decepções e fracassos recentes. De violão empunhado, versos rabiscados e de fervor criativo que durava por 12 horas ininterruptas, nascia a força embrionária de For Emma, Forever Ago, um marco na música recente.

O primeiro mérito do debut do Bon Iver (francês para bom inverno, embora soletrado de forma errada propositalmente) é seu forte poder atmosférico, arrebatador, irrefutável. Ouvir For Emma é como ser transportado para a cabana na floresta de Wisconsin, posicionado num canto escuro, às sombras, espectador silencioso, parte concreta da solidão do artista. Solidão essa que, de tão lívida, é quase parte das canções, um instrumento adicional perceptível nos intervalos do violão ou na respiração de Vernon. Há algo ali que lembra a habilidade de compilar a tristeza em canções de Nick Drake, com seu Pink Moon, ou o virtuosismo melancólico encontrado em Either/Or de Elliott Smith, mas Vernon mostra-se ainda mais nu, como se exorcizasse todos os seus demônios diante de nossos ouvidos.

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A capacidade vocal de Vernon é um atrativo a mais que merece destaque. Em For Emma, Forever Ago, o falsete, que se tornaria sua característica vocal mais marcante, foi aperfeiçoado e tecnicamente apurado, a ponto de por si só ser marca da melancolia que as músicas sugerem. A voz de Vernon é a exteriorização de uma alma sensível, o instrumento necessário para dar o tom aos versos transbordantes de lirismo, à poesia glacial das canções. O próprio Vernon assume o jeito peculiar de compor que vai além do valor semântico das palavras, mas busca também o concretismo e o poder de criar imagens sugerido pelos sons e rimas. As letras não são fáceis de ser interpretadas - e não é essa a intenção; não há linearidade ou história sendo contada, mas apenas sentimentos expostos.

As canções de For Emma, por tão emblemáticas, romperam os limites da cabana e atingiram o grande público. Peter Gabriel tem uma fantástica versão para a faixa de abertura Flume, enquanto uma das mais belas canções do álbum, Skinny Love, ganhou um cover da britânica Birdy - que, revestida dum verniz pop, superou em sucesso a própria versão original, embora não em emoção e qualidade.

A explosão catártica se completa nos últimos versos de re:stacks, que fecham o álbum de forma otimista e com uma promessa: "your love will be safe with me". Seria Justin Vernon deixando para trás a mágoa e a decepção e expurgando as últimas consequências das más-experiências amorosas vividas. E, como se fechasse a porta da cabana e se preparasse para a primavera, ouve-se o violão sendo deixado de lado e um suspiro significativo, de quem revive, renasce, depois do enclausuramento - não físico, mas emocional. For Emma, Forever Ago é, portanto, o retorno à liberdade para Justin Vernon.


Raphael Cardoso

Raphael mora em Nova Friburgo/RJ, onde formou-se em Letras. Tem na nostalgia dos dias cinzentos e no senso de solidão da cidade grande a inspiração para seus textos, relatos melancólicos da vida em preto-e-branco..
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