sob o boné.

do mundo em preto-e-branco e outras melancolias

Raphael Cardoso

Raphael mora em Nova Friburgo/RJ, onde formou-se em Letras. Tem na nostalgia dos dias cinzentos e no senso de solidão da cidade grande a inspiração para seus textos, relatos melancólicos da vida em preto-e-branco.

As muitas histórias que um prédio tem para contar

Um blog ficcional escrito a muitas mãos que tenta retratar e entender a tristeza e a melancolia da cidade grande: assim é o Edifício Cinza e seus moradores.


edificio cinza.jpg o topo do Edifício Cinza, em contraste com o céu azul

Da solidão claustrofóbica da metrópole, nasce a poesia cotidiana de gente ordinária e triste, embora, às vezes, nem se saiba o motivo da tristeza; poderia gente comum, seus dilemas, perturbações, temores e vazios, protagonizar as histórias da cidade grande? Há espaço para o banal nas narrativas que podem (e devem) ser contadas?

Acreditamos que sim. E, portanto, sob as luzes amareladas da Cidade (sim, assim mesmo, com letra maiúscula, representando todas e nenhuma ao mesmo tempo), demos vida a sete moradores desesperançados e desajustados que tentam pôr sentido à sobrevivência enfadonha de viver numa grande metrópole. Eles são os protagonistas d'As Crônicas do Edifício Cinza, blog cooperativo escrito por sete amigos (grupo no qual me incluo, orgulhosamente).

A ideia é simples: cada um dos sete autores teve autonomia para criar um morador para este prédio antiquíssimo que se ergue no coração da cidade, imponente. Suas vidas e angústias são, ocasionalmente, parecidíssimas, mas as paredes do prédio (uma metáfora para o rush no qual vivemos?) separam veementemente as pessoas, privando-as da humanidade e do contato físico. E eis a grande diferença deste blog para os demais blogs cooperativos: diante da autonomia para a criação, as histórias podem correr para qualquer lado, pelos corredores labirínticos da jornada que é a vida.

Com o passar dos episódios, acabamos por nos sentir vizinhos destes moradores, cada um marcado pelo desconsolo inerente à Cidade: Célio, veterano de guerra, aos 92 anos, perscruta a morte nos próprios olhos; Lêda tenta acostumar-se com a ideia de que os 45 anos que passara ao lado do marido agora chegaram ao fim; Jorge ("um cretino", nas palavras da própria ex-esposa), tem teorias mirabolantes para amenizar a realidade inexorável; Ulisses viveu sob a pressão do pai no que diz respeito à sua homossexualidade e agora sente-se inerte diante das repercussões do passado em sua vida adulta; Mirella vive a maturidade que os anos lhe proporcionaram entre devaneios e fugas de uma vida ordinária que já não lhe agrada; Ártemis está no buraco, mas não deixa que isso acabe com seu bom humor (que varia sublimemente entre o sarcasmo e o escárnio); e Mário, como que preso ao topo da torre (nesse caso, o quinto andar do prédio) tem planos de finalmente descer à Terra e começar a viver.

sin city.jpg Cidade do Pecado, de Leonardo Paris

Na tentativa de retratar o individualismo da nossa sociedade, as histórias do Edifício Cinza nascem solitárias, no intuito de se cruzarem e se tornarem experiências literárias diversas, com muitos ângulos e percepções. Experiência que você pode acompanhar também, agora que tem o endereço do prédio às mãos. Passe para tomar um café conosco. Será um grande prazer.

As Crônicas do Edifício Cinza: blog fan page no facebook


Raphael Cardoso

Raphael mora em Nova Friburgo/RJ, onde formou-se em Letras. Tem na nostalgia dos dias cinzentos e no senso de solidão da cidade grande a inspiração para seus textos, relatos melancólicos da vida em preto-e-branco..
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