sob o boné.

do mundo em preto-e-branco e outras melancolias

Raphael Cardoso

Raphael mora em Nova Friburgo/RJ, onde formou-se em Letras. Tem na nostalgia dos dias cinzentos e no senso de solidão da cidade grande a inspiração para seus textos, relatos melancólicos da vida em preto-e-branco.

Uma dor chamada Keaton Henson

O solitário músico, poeta e desenhista inglês traz em sua arte a percepção de um mundo sombrio e taciturno - embora belo -, assim como a decepção com o amor e o fracasso dos relacionamentos, embalados no violão dedilhado e nos versos suaves.


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Keaton Henson não quer falar dele mesmo. Talvez não seja necessário, com versos tão sinceros e universais, com seu jeito de cantar íntimo, que nos causa a sensação de tê-lo em nosso próprio quarto, às escuras, declamando suas poesias em formas de canção - literalmente falando. O poeta e músico de 24 anos, ao mesmo tempo que tenta tirar o foco de sua vida particular (em seu site oficial lê-se que "Keaton Henson passa seu tempo sozinho, escrevendo canções e por vezes desenhando), instiga-nos ao questionamento: de onde vem os doloridos versos que envernizam sua arte?

Até o momento, são dois álbuns lançandos: Dear, de 2010, e o recém-lançado Birthdays, culpado dos indesejáveis holofotes que começam a cair sobre sua música. Não que Henson faça música comercial ou almeje o topo das paradas da Billboard; mas sua abordagem de sentimentos incômodos - o fim de relacionamento, o amor não correspondido, os questionamentos sobre o novo amor do seu grande amor ("Does he know when you're sad?"), a solidão existente nas quinas de um relacionamento - tornam sua música uma trilha-sonora madura e consistente para aqueles momentos em que o término do amor parece capaz de nos derrubar.

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A música intimista e sentimental de Keaton Henson vem acompanhada de vídeos que captam com perfeccionismo a atmosfera e profundidade de seus versos. Veja, por exemplo, no vídeo para "You don't know how lucky you are", como a câmera que se inicia em um close doloroso nas mãos inquietas e nos olhos expressivos da moça vai, aos poucos, abrindo-se para dar vazão ao senso de solidão que a música propõe - e temos, então, a moça aos joelhos numa bela colina ao entardecer.

Em "Sweetheart, what have you done to us?", um doloroso epitáfio para qualquer relacionamento ("Follow my words to the end of our love"), o próprio Keaton deixa o seu lugar de conforto e a solidão para ser enfocado num desnudante - se não de roupas, de alma - primeiro plano que se finaliza com o mar manso e um icônico sinalizador.

Na animação de "Small Hands", a saudade, a separação, o fim são alegoricamente representados por animais da floresta num dia triste e fatidicamente frio - num dos vídeos mais tristes já feitos para uma música:

E, por fim, um dos vídeos mais representativos da força taciturna de Keaton Henson e sua música: uma gravação no deserto da California, introduzida, à época, pelo próprio músico, com as seguintes palavras:

"'You' é uma música sobre vida e morte em outros braços. O deserto estava quente e, ironicamente, vazio de vida. Obrigado por escutar, sinceramente, Keaton H.”

É desta solidão tão pungente que a música de Keaton Henson é entremeada; uma sinceridade poética que transforma sua simples audição numa dolorosa catarse. Uma trilha-sonora perfeita para os corações partidos.

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Raphael Cardoso

Raphael mora em Nova Friburgo/RJ, onde formou-se em Letras. Tem na nostalgia dos dias cinzentos e no senso de solidão da cidade grande a inspiração para seus textos, relatos melancólicos da vida em preto-e-branco..
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