Alessandra Monnerat

Alessandra escreveu esse texto e acha estranho falar de si mesma na 3ª pessoa. Adora comer sobremesa, assistir a musicais e cantar em karaokês. Às vezes pensa em coisas sérias também. Estuda Jornalismo.

Todos os fãs de Arcade Fire são retardados

Esse texto é sobre música, retardamento, e não necessariamente sobre a banda canadense Arcade Fire.


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Antes que alguém me pergunte: eu sou muito fã de Arcade Fire (e não me acho muito retardada).

Começou em uma noite de Ano Novo, uma noite em que choveu a cântaros. Eu acho que eu ainda ia entrar no Ensino Médio, então eu devia ter uns 14 ou 15 anos. Eu estava na varanda, conversando com meu pai, observando o dilúvio. Entrei na sala e liguei a TV. Pra mim é muito importante marcar mentalmente as primeiras coisas do ano: liguei na MTV (que ainda era canal aberto) e estava tocando Arcade Fire. A primeira música de 2009 (ou 2008?).

Só em retrospectiva esse momento se tornou importante na minha memória; por isso é muito provável que eu esteja inventando em cima dele. Baixei (ilegalmente) os dois discos que eles tinham na época e deixei no meu computador. Eu tinha acabado de descobrir a Last.fm e estava experimentando um monte de música. Fui ouvir com atenção depois de um bom tempo, e quando, pela terceira ou quarta escutada, a música assentou em mim, passei a tê-la em minha companhia todos os dias. Entrei em fórum (o Us Kids Know), conheci gente baseada em critérios arcadefireanos, reuni o máximo de informações possíveis sobre a banda na minha cabeça, chorei ouvindo música, gastei dinheiro comprando CD. Tive picos de obsessão e épocas em que mal ouvia. Acompanhei outros dois discos sendo lançados. O primeiro bem de perto, com ansiedade. O segundo, meio de longe, com curiosidade.

Mas aí é que vem a questão: nunca fui uma fã muito social. É verdade, tentei converter alguns amigos ao culto, e eventualmente ficava chata a respeito disso, mas até que ponto você pode falar sobre uma mesma coisa? Não que a música seja estática: ela muda, traz novas impressões, se adequa a momentos diferentes. Mas pra mim ela, a Música, sempre esteve muito mais no campo da experiência pessoal e intransferível. Minha, só. Como descrever o indescritível?, pergunto ao Schopenhauer. Quando dividido com outro alguém, parece que meu amor perde o brilho. Encontrar um semelhante é assim: tem aquela fagulha de sentimento, um "ah, que legaaaal", que no entanto vai morrendo aos pouquinhos. Parece que a gente entra em uma guerra de conhecimento, disparando fatos, e no final ninguém mais está falando sobre música.

Daí que, cinco anos depois do início dessa história, a banda resolve vir ao Brasil. Meu coração já estava acalmado em relação a isso, mas o anúncio da turnê trouxe um bloco maciço de emoções, em dois pontos precisos: a compra dos ingressos e a semana anterior ao show. Da minha própria experiência, eu esperava que alguma coisa desse errado (porque sempre dá) e fui me preparando pra isso. Falei pro meu namorado, que ia (e foi) ao show comigo: procura alguém nessa Internet com letra maiúscula pra dividir táxi com a gente na volta.

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Então ele entrou em um grupo do Facebook chamado, muito acertadamente, de Arcade Fire Brasil. Eu não sabia da existência de um fã-clube brasileiro e fiquei muito feliz em ver tanta gente participando. Mas o Henrique me disse, categoricamente: todos lá são retardados. Mas não é possível eles serem retardados, eles gostam de Arcade Fire. Mas eles são. Como assim são retardados? São sendo. Me dá um exemplo.

- Qual seu maior medo em relação ao Arcade Fire?

- Que a banda seja conhecida pelas massas.

Eu não conheço a pessoa que fez essa postagem nem sei se o post existe de verdade nesses termos, mas algo a ver com as palavras "medo" e "massas" me deixou preocupada. Por que não seria bom a banda ser mais conhecida aqui? Em termos práticos, seria mais material disponível para os fãs, e eles seriam atraídos a vir mais vezes ao Brasil. E que medo é esse que vem de uma banda? Eles não são atraentes, mas...

Parei pra ver e concluí. São sim. Todos retardados. É claro que a palavra aqui não quer dizer o que é, mas todo mundo parece meio retardado na sua obsessão. É algo em ter que reafirmar o que já foi dito, comentar sem pensar, em entusiasmo desmedido. Colocar pra fora sem rodeios o que eu mesma guardo aqui dentro.

De alguma forma, no dia do show, não deu nada errado. No meu estágio não tive muito trabalho, na hora do almoço não peguei nenhum trânsito, na faculdade recebi uma nota ótima de uma prova. No show eu fiquei na grade. Vi a calcinha da Régine e peguei na perna do Win. Quase não ouvi eles cantando, porque eu mesma cantava junto. Eu tentava parar e entender o que estava acontecendo em alguns momentos, como alguns escritores fazem, pra tentar falar sobre isso depois. E não dá. Ali, pulando como todo mundo, sentindo como todo mundo, sem nem precisar dizer. Nós todos, retardados.


Alessandra Monnerat

Alessandra escreveu esse texto e acha estranho falar de si mesma na 3ª pessoa. Adora comer sobremesa, assistir a musicais e cantar em karaokês. Às vezes pensa em coisas sérias também. Estuda Jornalismo..
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