sobre café e cigarros

Porque em preto e branco a vida é bem melhor.

Diêgo Rodrigues

Graduado em Jornalismo pela Universidade Federal de Viçosa (UFV).Assim como Bergman e Lars Von Trier adere à sabedoria hobbesiana de que o ser humano é mau por si só.

Interestellar – um épico da ficção científica, que explicita as características do cinema de Nolan

Este post fora motivado pela gritante qualidade do filme dirigido por Christopher Nolan, uma sci-fi repleta de dramas existenciais, filosóficos, afetivos e amorosos (as boas obras do gênero sempre possuem). Os atributos técnicos da película impressionam. Mesmo assim, o filme recebeu apenas cinco indicações ao Oscar 2015 (Efeitos Visuais, Trilha Sonora, Edição de Som, Mixagem de Som, Direção de Arte). Venceu apenas na categoria de Efeitos Visuais.


foto capa.jpg

No início da obra, somos apresentados a um futuro distópico da Terra, tomada por diversas pragas (a poeira é a principal causa), que ocasionaram uma escassez de comida e transformou grande parte da população em fazendeiros, além da proliferação de doenças respiratórias. Todo este momento nos é oferecido documentalmente, através dos relatos de sobreviventes das mazelas terrestres.

Intercalando os depoimentos, surge o protagonista de Interestellar (2014), Joseph Cooper (Mattew McConaughey – em mais uma atuação visceral), anteriormente um piloto da NASA, que vive com seus filhos e sogro. Joseph é acordado por sua filha Murphy (Mackenzie Foy e Jessica Chastain), supostamente aterrorizada por um fantasma. Este mesmo fantasma lhe passa as coordenadas de um local desconhecido, que posteriormente descobrimos ser o que restou da NASA.

Neste instante, Cooper é convidado a comandar uma expedição interestelar, em busca de encontrar um novo planeta, que seja humanamente habitável. Dividido entre abandonar a família e salvá-la, Joseph é convencido pelo professor Brand (Michael Caine – repetindo as elegantes atuações e mais uma parceria com Nolan) a partir acompanhado pelos cientistas Doyle (Wes Bentley), Romilly (David Gyasi) e a Dra.Brand (Anne Hathaway), filha do personagem de Michael Caine. Durante o processo de aceitação e o início da jornada, Christopher Nolan usa o desconhecimento de Cooper – sobre a missão - para explicar conceitos como física quântica, buraco negro, relatividade, buraco de minhoca, entre outros, ao espectador. O que por muitos pode ser encarado como uma falha no roteiro (novamente criado em parceria pelos irmãos Joseph e Christopher Nolan), talvez seja apenas a maneira de não perder o interesse do público. O diretor usara tática semelhante em Inception (2010). A personagem Ariadne (Ellen Page) só existe para que possamos entender o funcionamento das “invasões dos sonhos”.

Interestellar.jpg Somos apresentados a alguns conceitos presentes no filme, o buraco de minhoca.

Esse primeiro ato da obra, serve basicamente para nos apresentar os personagens e teorias utilizadas por Nolan no roteiro, além de uma bela dramaticidade sobre nossas relações familiares (aliás, reflexões afetivas, amorosas e existenciais ditam o ritmo da obra). O filme é fortemente influenciado pelos estudos e escritos de Kip Thorne, que atuou nos sets de filmagem e na produção, visando aumentar a "veracidade" do script.

No segundo ato, chegamos aos momentos geniais e sufocantes do filme, que ocorrem após a incursão da nave Endurance pelo espaço. A partir do lançamento, sentimos a brusca mudança de ritmo no filme, a trilha sonora mais densa e sacra (graves sons de órgão, que alternam entre silêncios angustiantes). Como o próprio Nolan afirmou se inspirar muito em Stanley Kubrick, torna-se impossível não estabelecer uma relação, já que essa era uma característica utilizada com maestria pelo diretor de Laranja Mecânica (1973) – nos dizer algo, mesmo que no silêncio. Novamente, Hans Zimmer é quem assina a trilha do diretor britânico (quinto trabalho entre eles) e trabalha com perfeição, mesmo quando o efeito sonoro se sobrepõe um pouco ao diálogo dos personagenos dando maior intensidade ao entorno. Ou então, no momento em que Cooper e seus companheiros precisam deixar um planeta repleto de água com urgência e a cena possui uma trilha reproduzindo o tic-tac do relógio, mas com o som de “gotas” caindo.

O professor Brand mantém contato com a tripulação através de vídeos enviados e respondidos periodicamente. Logo em sua primeira conversa com a filha, a doutora Brand, o personagem de Michael Caine recita versos de Dylan Thomas, poeta inglês, marcado por influências, célticas, bíblicas e surrealistas. O artista também ficou conhecido por seus excessos e vida desregrada, que o tornaram inspirador para os jovens beats e influenciou Robert Allen Zimmerman a adotar o nome de Bob Dylan. Ao citar o poema de um autor nada preocupado com a perenidade de sua existência, em uma ficção científica marcada por uma luta pela sobrevivência, cria-se um contraponto interessante. O trecho citado pelo personagem de Caine pode claramente ser interpretado como a significação e objetivo dos desbravadores da Missão Lazarus. Confira o trecho recitado por Brand:

Do not go gentle into that good night, (Não vás tão gentilmente nessa boa noite escura,)

Old age should burn and rave at close of day; (Os velhos deveriam arder e bradar ao fim do dia;)

Rage, rage against the dying of the light. (Raiva, raiva contra a morte da luz que fulgura.)

Though wise men at their end know dark is right, (Os homens sábios, em seu fim, sabem com brandura,)

Because their words had forked no lightning they (O porquê a fala de suas palavras estava vazia,)

Do not go gentle into that good night. (Nâo vão tão gentilmente nessa boa noite escura.)

Good men, the last wave by, crying how bright (Os homens bons, ao adeus, gritando como a alvura)

Their frail deeds might have danced in a green bay, (De seus feitos frágeis poderia ter dançado em uma verde baía,)

Rage, rage against the dying of the light. (Raiva, raiva contra a morte da luz que fulgura.)

É dentro da Endurance, que Nolan trabalha com planos fechados (essencialmente médios ou closes), visando repassar ao espectador todo o peso dramático, amoroso e existencial da obra. O ótimo controle do mise-en-scéne também é visível nas cenas externas (principalmente os planos gerais dos mundos visitados pela tripulação). Nesse momento, cabe ressaltar a belíssima fotografia do filme - mesmo que computadorizada. A direção de arte e sua montagem paralela conseguem incrustar emoção através do ambiente hostil e desconhecido.

Interestellar I.jpg A bela fotografia do épico da ficção científica.

TARS e CASE, os simpáticos robôs gigantes (lembram bastante os monolitos de 2001) que acompanham a tripulação da nave, nos cativam. Apesar de não serem dotados de sentimentos verdadeiros. Os motivos são vários, mas o maior deles é a constituição de suas vozes inegavelmente humanas. Não distinguimos entre os dois e o restante dos personagens enquanto conversam. Só as imagens nos levam a essa diferenciação.

Tars e Monolitos.png Na imagem, o monolito de Kubrick e os robôs gigantes de Nolan.

Seguindo a jornada em busca de um novo planeta, a tripulação se depara com o idealizador de todo o projeto Lazarus, o Dr. Mann (a produção do filme escondeu essa atuação improvável e boa, farei o mesmo), um dos três ou quatro personagens que fogem a unidimensionalidade - Murphy, Professor Brand e Cooper são os outros. Em uma crise de egoísmo e clara demonstração hobbesiana, Mann coloca em risco a integridade dos tripulantes. O último personagem a aparecer na obra é o que impulsiona as maiores reflexões filosóficas. Primeiramente, exercita o famoso pensamento de Thomas Hobbes, o ser humano é mau por si só e seu próprio lobo. Daí a necessidade de uma força maior de controle na sociedade. Posteriormente, Mann força Cooper a exercitar ao extremo seu instinto de auto-preservação, mas sem um conflito com outro ser, e sim os limites impostos pela jornada espacial para salvar o ser humano. Este sentimento está presente em toda obra, se pensarmos que os cientistas buscam a sobrevivência de uma espécie, que se sabotou. A atuação simples de Anne Hathaway diminui a intensidade da reflexão amorosa da obra, que é balanceada com a dramaticidade da relação entre Cooper e Murphy (pai e filha).

Interestellar 2.jpg Cooper luta por sua sobrevivência e da espécie humana.

Em Interestellar, as maiores características de Nolan, vistas anteriormente em obras como Doodlebug (1997), The Following (1998), Memento (2000), The Prestige (2006), Inception (2010) e Batman (2005-2008-2012 - em menor tom), estão expostas como chagas. A montagem paralela; os roteiros repletos de reviravoltas; a necessidade de, em alguns momentos, “explicar” algo do roteiro ao púbico (os críticos cinematográficos detestam isso); as trilhas sonoras intensas e personagens despidos da tradicional moral e perfeição hollywoodiana.


Diêgo Rodrigues

Graduado em Jornalismo pela Universidade Federal de Viçosa (UFV).Assim como Bergman e Lars Von Trier adere à sabedoria hobbesiana de que o ser humano é mau por si só..
Saiba como escrever na obvious.
version 5/s/cinema// @destaque, @hplounge, @obvious, @obvioushp //Diêgo Rodrigues