sobre café e cigarros

Porque em preto e branco a vida é bem melhor.

Diêgo Rodrigues

Graduado em Jornalismo pela Universidade Federal de Viçosa (UFV).Assim como Bergman e Lars Von Trier adere à sabedoria hobbesiana de que o ser humano é mau por si só.

El Abrazo Partido, a crônica de um país em decadência

Obra que recebeu o Urso de Berlim e concorreu ao Oscar, El Abrazo Partido realça as principais características do cinema argentino contemporâneo: o roteiro literário, as crônicas urbanas, a adequação aos meios técnicos disponíveis, entre outras. Além de traçar um panorama da infindável crise, que assola a Argentina desde o final da década de 90.


Capa.jpg

El Abrazo Partido (O Abraço Partido, 2004) é mais uma das várias obras interessantes do “recente” cinema argentino. Digo recente, pois as rodas de conversa se infestaram de especialistas sobre a filmografia dos nossos vizinhos. Sempre com argumentos rasos como: “eles são bons porque ganharam o Oscar”, “Só existem obras estreladas pelo Ricardo Darín”. Esses são os comentários mais corriqueiros. Infelizmente, Darín peca por ser um excepcional ator e incrivelmente requisitado. Sou fã incondicional desse senhor, mas muitos outros motivos justificam a qualidade do cinema argentino.

A produção argentina possui inúmeros pontos destacáveis, uma produção crescente e constante, academias cinematográficas bem estruturadas, incentivos estatais decentes, roteiros extremamente elaborados e condizentes com a realidade estrutural argentina – destacam-se também por serem extremamente literários. Além de gozar de uma diversidade temática maior que a nossa (não ignoro ou diminuo a exuberante filmografia tupiniquim, mesmo com alguns anos de penumbra), chamam a atenção temas como os problemas sociais, os dramas de uma classe média desesperada com a crise econômica sem fim, crônicas urbanas, entre outros.

E é essa classe média desnorteada, que servirá como ponto de partida para o drama pessoal de Ariel Makaroff, protagonista e narrador da obra (a história se confunde com a de Daniel Burmann, diretor do longa-metragem). O filme se inicia com Makaroff - nos apresentando a galeria em que trabalha, localizada no centro de Buenos Aires, com um belíssimo “plano-sequência” auxiliado pela dinamicidade da câmera na mão. Aliás, os longos planos, a câmera irrequieta e os efeitos bruscos de zoom acompanharão toda obra. Cada loja ou personagem daquele ambiente está intimamente enraizado na existência de Ariel.

Assista de 00:26 até 04:46

O protagonista é representado pelo uruguaio Daniel Hendler, segundo ator mais famoso do atual cinema argentino, que só perde para o genial e visceral Ricardo Darín. Logo ao sermos apresentados a galeria, podemos perceber o quanto está degradada e sufocada. Claramente, o ambiente de trabalho em que Makaroff cresceu e ajuda sua mãe, é obsoleto - caindo aos pedaços e sempre vazio. Os que podem, procuram mudar-se ou vender suas lojas. Nitidamente uma representação da situação econômica do país. A galeria é a Argentina falida e que a classe média deseja abandonar com urgência.

E Ariel não está alheio a isso e quer retirar o passaporte polonês (sua avó fugiu do Holocausto e mudou-se para a Argentina ainda jovem), mesmo sem nenhuma identificação com a cultura do país. A entrevista para obtenção do passaporte é constrangedora e demonstra o desconhecimento sobre a Polônia. Mas, essa crise de identidade transcende a nacionalidade, ela está diretamente ligada ao pai ter abandonado a família quando Makaroff era uma criança. Suas lembranças do patriarca são as contadas pela mãe e alguns integrantes da galeria; e uma breve aparição na fita gravada durante sua circuncisão- ainda bebê.

Assista de 21:04 até 22:07

Essa crise existencial não é exclusividade de nosso protagonista. De alguma maneira, todos os personagens buscam novo sentido para a vida. Seja a mãe de Ariel, Sonia Makaroff (Adriana Aizemberg), que encontra um novo amante; Ou Mitelman (Diogo Korol), melhor amigo do personagem principal e que se apaixona por uma Lituana (não sabe uma palavra em espanhol); Ou Joseph Makaroff (Sergio Boris), seu irmão, que nunca desejou trabalhar na galeria e sonhava ser rabino.

A fuga é uma temática constante na vida de Ariel Makaroff, um neto do Holocausto. O rapaz não sabe por que abandonara a namorada, o curso de Arquitetura e sempre que algo lhe incomoda, põe-se a correr sem rumo. As sequências das perambulações são extremamente belas, onde são intercalados travellings, planos detalhes das pernas de Ariel (que nos remetem aos filmes de western do início do século XX) e uma pungente trilha sonora com tangos. A película abusa e com extrema sabedoria, da premissa que André Bazin utilizara para definir a sétima arte: “Cinema é movimento”. A câmera inquieta e o constante movimento durante os planos dão o tom a obra, de baixo orçamento e totalmente crua no que tange aos efeitos especiais.

Assistir de 25:27 até 26:04

Claramente a cena nos remete a outros momentos do cinema, como evidencia a imagem retirada de Run Of The Arrow (1957 - um western clássico).

Run of the Arrow.jpg

Deve-se destacar também o roteiro extremamente bem amarrado e dividido em 14 microepisódios, que darão unidade e facilitam no conhecimento das pessoas presentes nesse microcosmo da vida de Ariel. Outro ponto a importante são os planos conjuntos e como Burman utiliza os elementos fora do enquadramento. O diálogo com seu irmão (Sérgio), em que discutem a situação do país, é um belo exemplo.

Plano Conjunto.jpg

Extra-Campo.jpg

Extra-Campo 2.jpg

A mensagem presente em toda a película é um misto do que dizem Elias e Sônia Makaroff, logo no princípio da obra. Apesar da crise econômica (e de identidade) da galeria (ou Argentina) e a aparente falta de sentido na vida, fugir e renegar suas origens, aquilo que está incrustado em sua essência, é um erro. "As histórias pequenas sempre devem ser contadas. E não destruas o que tem."


Diêgo Rodrigues

Graduado em Jornalismo pela Universidade Federal de Viçosa (UFV).Assim como Bergman e Lars Von Trier adere à sabedoria hobbesiana de que o ser humano é mau por si só..
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/cinema// @destaque, @hplounge, @hp, @obvious, @obvioushp, @obvious_escolha_editor //Diêgo Rodrigues