sobre café e cigarros

Porque em preto e branco a vida é bem melhor.

Diêgo Rodrigues

Graduado em Jornalismo pela Universidade Federal de Viçosa (UFV).Assim como Bergman e Lars Von Trier adere à sabedoria hobbesiana de que o ser humano é mau por si só.

To be or not to be - uma primorosa obra de Lubitsch

Obra listada entre as cem melhores comédias de todos os tempos nos prende desde o primeiro minuto. Somos fisgados a sermos voyeuristas, mergulhando sutilmente nos dramas da Segunda Guerra Mundial.


To be or not to be (II).jpg A tranquila e bela Varsóvia.

“Estamos em Varsóvia, capital da Polônia. Agosto de 1939, a Europa ainda está em paz. No momento, a vida em Varsóvia está normal como sempre. Mas de repente algo acontece.”

Esse algo é que quebrará toda paz e monotonia apresentadas até o momento, onde nos foram apresentadas as lojas da cidade (Lubinski, Kubinski, Lominski, Rozanski, Poznanski – uma clara piada de Lubitsch com a sonoridade do polonês) e o fluxo de cidadãos. Hitler é quem causa o alvoroço no centro de Varsóvia, uma multidão se junta ao seu redor, sem saber o que aquilo significava. Teria a Alemanha declarado guerra? Um ataque surpresa? Não, era apenas um ator testando a veracidade de sua caracterização como o ditador alemão. Logo seria descoberto por uma criança, que decidira pedir um autógrafo.

To be or not to be (I).jpg Fachada de loja e o jogo de palavras.

To be or not to be (III).jpg Ditador causa alvoroço na rotina da cidade.

Existe um consenso, que as grandes obras entregam em sua primeira cena o que a obra. Em To be or not to be (1942), o alemão Ernst Lubitsch, o faz com grande maestria. Essa será a tônica do filme, um misto de drama (não poderia ser diferente, já que aborda a Segunda Guerra Mundial); com o toque bem humorado e ácido – característico do diretor, o Toque Lubitsch; e com um roteiro cheio de reviravoltas prendendo a atenção do público.

No centro da trama estão os nazistas e uma companhia de teatro polonesa, que tem o espetáculo, Gestapo – era encenado paralelamente com uma adaptação de Hamlet, cancelado pouco antes da eclosão da Guerra. As grandes estrelas teatrais da história são Joseph (Jack Benny) e Maria Tura (Carole Lombard, em seu último papel), que tem um rápido affair com o militar polonês, Stanislav Sobinski (Robert Stack), antes de sua partida para o exército.

Uma característica presente em todo o longa-metragem é a bela fotografia, principalmente quando a encantadora e charmosa personagem de Lombard está em cena. Maria Tura reluz por todo o filme (literalmente, já que a iluminação é sempre maior quando ela está presente nos quadros). Outro destaque são os planos gerais e americanos muito bem executados durante a trama. E também, o primoroso roteiro (Edwin Justus Mayer), que une a companhia na hercúlea tarefa de enganar um espião e o exército nazista, Professor Siletsky (Stanley Ridges), e convencê-lo de que eles são a verdadeira Gestapo. Tudo isso para impedi-lo de denunciar as forças rebeldes polonesas aos alemães. A empatia por todos os personagens é incontrolável, mesmo pelos “maus”.

To be or not to be (IV).jpg Maria Tura, bela e reluzente.

To be or not to be (V).jpg A bonita fotografia do longa-metragem.

Entre as maiores ironias e piadas da obra está o fato de que os artistas poloneses atuam melhor longe dos palcos (enganando os germânicos). Durante as apresentações para o grande público são apenas razoáveis. As mudanças entre ficção e realidade conduzem primorosamente o filme durante todas suas reviravoltas. Essa é a grande metáfora que a obra faz com Hamlet e O Mercador de Veneza – ambas de William Shakespeare. O ser ou não ser ator - a peça dentro da peça (nesse caso, o filme), o conhecimento de que suas vidas dependiam da atuação com os nazistas. Um belo exemplo está na fala do personagem secundário - Greenberg (Felix Bressart), que sempre sonhou em interpretar Shylock, e ao ser preso pelos nazistas, realiza seu desejo e pode recitar o trecho:

“ Não tenho olhos? Não tenho mãos, órgãos, sentidos, dimensões, simpatia, paixões? Alimento-me com a mesma comida, firo-me com as mesmas armas, me sujeito às mesmas doenças. Se nos furam, não sangramos? Se nos fazem cócegas, não rimos? Se nos envenenam, não morremos?”

To be or not to be (VI).jpg Referência ao Mercador de Veneza, um momento tocante da obra.

Claramente uma alusão do que o povo polonês, judeu (assim como na obra de Shakespeare) e outros diriam aos alemães. Uma súplica, enfatizando a igualdade entre todos humanos, somos pertencentes a mesma raça. Não existe soberania alguma. Uma sacada genial de Lubitsch, tornando a sua obra ainda mais grandiosa e pungente. O alemão fora um dos grandes nomes da Hollywood Clássica e conseguiu tratar um tema tão delicado como a Guerra, de maneira leve, ácida e dramática. To be or not to be figura juntamente com The Great Dictator (1940 – Charles Chaplin) e Dr. Strangelove (1964 – Stanley Kubrick) entre as grandes sátiras armamentistas do cinema.

Trailer:

OBS.: Após muitos postes, enfim um filme preto e branco (para fazer jus ao nome do blog).


Diêgo Rodrigues

Graduado em Jornalismo pela Universidade Federal de Viçosa (UFV).Assim como Bergman e Lars Von Trier adere à sabedoria hobbesiana de que o ser humano é mau por si só..
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