sobre café e cigarros

Porque em preto e branco a vida é bem melhor.

Diêgo Rodrigues

Graduado em Jornalismo pela Universidade Federal de Viçosa (UFV).Assim como Bergman e Lars Von Trier adere à sabedoria hobbesiana de que o ser humano é mau por si só.

Que Horas Ela Volta? - o passado nos persegue

Em um país tão diverso, ainda sobrevivem os problemas raciais e de "classes". Porém, possuímos bastante apreço por isso. Estereótipo e "crítica social" se vendem facilmente. É preciso um debate profundo, que não caia em clichês como o filme de Anna Muylaert.


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Que Horas Ela Volta? cai no antigo desejo brasileiro de fazer justiça/igualdade social através da arte. A obra é uma clara alusão ao mito do Brasil da democracia racial e de classes – impossível não recordar-se de Casa Grande e Senzala. A intenção parece ser exatamente essa, abordar o arcaísmo societário brasileiro, faz do filme um manifesto/evento. Talvez esse viés seja positivo. Traz-se a um momento de reflexão, ao mesmo tempo agrada a crítica de cultura e a elite intelectual (cada vez mais uníssona em pensamento). Também rende textos sobre feminismo, luta de classes etc. Mas e o filme em si, a obra de arte? Comum. Roteiro extremamente didático, que subestima a capacidade de raciocínio do espectador. Esteticamente possui momentos de destaque. As atuações se sobressaem no marasmo artístico da obra.

No primeiro ato, já desvendamos dois personagens: Val (Regina Casé) e Fabinho (Michel Joelsas). Fica evidente que Val (retirante nordestina) é a empregada doméstica da família, mas é quem faz o papel de mãe para Fabinho. Vigia, cuida, faz cafuné, é cúmplice de suas peripécias e escuta seus anseios. A família do Morumbi (São Paulo), nada faz em sua residência, todas as tarefas ficam incumbidas à nordestina.

Mãe.jpg Val e seu "filho".

O filme demora a “engrenar”, os primeiros 20 minutos são arrastados. A história só ganha em ritmo com a chegada de Jéssica (Camila Márdila), rapidamente a garota percebe, apesar da afirmação de Carlos (Lourenço Mutarelli) e Bárbara (Karine Teles), que sua mãe não faz parte da família. O quarto da personagem de Regina Casé é o pior da casa. O único sem suíte, como observa Jéssica, vestibulanda de Arquitetura da USP – Faculdade de Arquitetura e Urbanismo. A doméstica dorme na senzala e os patrões na Casa Grande. Isso é o que Muylaert (diretora) quer nos gritar – com certa obviedade.

Prisão III.jpg O cárcere de mãe e filha.

Está presente também a “crítica” aos costumes adquiridos na vida contemporânea. Essa era líquida, que Bauman aborda com maestria e mais sutileza se comparado a Muylaert. Em um dos poucos momentos, dos três integrantes da família reunidos (pai, mãe e filho), ninguém se dedica a conversar ou dar atenção aos que estão à mesa. Os tablets enfeitiçam. Um plano conjunto, repleto de cores, ocasiona uma bela fotografia e torna a cena mais leve, menos postiça. Jantar.jpg Jantar em família.

"Fazer contato com o olhar, reconhecendo a proximidade física de outro ser humano, parece perda de tempo: sinaliza a necessidade de gastar uma parcela do tempo precioso, mas horrivelmente escasso, em mergulhos profundos (coisa que a exploração de profundidades certamente exigiria); uma decisão que poderia interrompes ou impedir o surfe por tantas outras superfícies não menos - e talvez muito mais - convidativas." (Zygmunt Bauman em 44 Cartas do Mundo Líquido Moderno, página 23).

Carlos, um artista plástico frustrado e marido submisso, vive à custa de uma herança paterna. Sua vida é regida por duas figuras femininas: a esposa megera, que ordena e dita todas suas ações; e a empregada “mãe”, servindo seus almoços, mimando e escondendo segredos como fumar. Nesse contexto, Jéssica causa outra revolução por ser a única a tratar o personagem de Mutarelli como homem. Logo percebemos que ele está envolvido pela jovem. Sempre que possível, está na companhia da garota. Faz mimos para chamar sua atenção, inclusive patético abuso e pedido de casamento – filmado à distância e em ponto fixo. Afinal, como salientou Gilberto Freyre: Toda fase da vida de alguém da Casa Grande era permeada por uma negra. Seja na amamentação ou na primeira noite de um homem.

Diálogo IV.jpg Bela "troca de olhares".

“[…] tudo aquilo que constitui uma sincera expressão da vida… na ternura, na mímica excessiva, no catolicismo em que se deliciam nossos sentidos, na música, no andar, na fala, no canto de ninar menino pequeno… Da escrava ou sinhama que nos embalou. Que nos deu de mamar. Que nos deu de comer, ela própria amolengando na mão o bolão de comida. Da negra velha que nos contou as primeiras histórias de bicho e de mal assombrado. Da mulata que nos tirou o primeiro bicho de pé de uma coceira tão boa. Da que nos iniciou no amor físico e nos transmitiu, ao ranger da cama de vento, a primeira sensação completa de homem.” (Gilberto Freyre em Casa Grande e Senzala, página 369).

Casamento.jpg O patético pedido de casamento.

Dona Bárbara (como Val a chama) é a típica patroa megera, faz pouco caso do presente de Val, um jogo de xícaras pretas e branca, em que o pires deve combinar com a cor oposta – seguindo o exemplo da caixa. A cena do descaso pelo regalo da empregada doméstica é retratada sem que possamos observar a reação dos convidados e de Bárbara. Mas, o que realmente incomoda a vilã é a presença de Jéssica. Abusada e “desobediente”, a filha da empregada “ousa” pular na mesma piscina que os patrões usam e causa reação histérica da patroa – a filha era patrimônio da casa, assim como Val. A solução foi chamar um técnico e afirmar que viu um rato passeando dentro da piscina (era preciso limpá-la). Uma fala pesada e icônica, todo espectador entendeu a metáfora do ato. Porém, Muylaert a estraga ao subestimar a capacidade de interpretação do público. É necessário que Jéssica diga isso: Você me acha um rato? - pergunta a Carlinhos.

Rato na Piscina.jpg Sou um rato?

A desobediência de Jéssica torna insustentável sua permanência na residência. Bárbara pede que Val não deixe a garota passar da cozinha. A empregada aceita tranquilamente, afinal era um favor permitirem a estadia da filha por lá. “Isso aí, a pessoa já nasce sabendo. O que pode e o que não pode.” A frase pronunciada por Val resume o que a autora deseja explicitar. A subserviência está arraigada, deveria ser passada de mãe para filha.

Jéssica é indolente. A garota não se conforma, não merecia ser tratada daquela maneira. Decide partir. Já não suportava os problemas da casa e a omissão de sua mãe – que claramente optava pelos patrões, principalmente Carlinhos. A cena da despedida é novamente filmada com distância do ocorrido. A câmera situada fora da residência, com um belo plano conjunto, em que as personagens passam de sombras a figuras ativas – metáfora com o futuro de Jéssica e Val. Uma pena a necessidade da chuva, para passar maior sensação de desamparo.

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Rompimento II.jpg Plano geral, chuva e sensação de desamparo.

Esse rompimento com a filha faz a empregada doméstica se rebelar também. Val deixa de cumprir ordens da família. Seu momento de liberdade rende uma bela fotografia, enquanto fala ao telefone e se esbalda na piscina, que nunca experimentara. Porém, o maior pecado da obra é a rápida resolução de toda a problemática apresentada. Em 15 minutos, vemos a garota ser aprovada no vestibular mais concorrido do país; Carlinhos ser reprovado na mesma prova e decidir morar na Austrália; descobrimos que Jéssica também abandonou um filho para tentar a sorte em São Paulo; Val pede demissão para morar com a filha e manda buscar seu neto (mesmo sem saber como se sustentariam, estavam felizes e libertas). O último ato do roteiro é bastante problemático, mas aparentemente a intenção não é uma obra coesa e melhor ritmada. É apenas um manifesto, mesmo que se utilize sempre de uma câmera, em ponto fixo – quase nunca é utilizada nas mãos, com tremor, tensão.

O pior é a simbologia da última cena, enquanto tomam café (mãe e filha). Após muito tentar, Val consegue utilizar o jogo de xícaras roubado de Dona Bárbara. Dessa vez, nada de preto com branco, branco com preto. Cada um na sua, branco com branco e preto com preto. Melhor que eles fiquem no Morumbi e nos deixem em paz – na nossa casinha no subúrbio. Saiu da senzala e subiu o morro.

Café IV.jpg


Diêgo Rodrigues

Graduado em Jornalismo pela Universidade Federal de Viçosa (UFV).Assim como Bergman e Lars Von Trier adere à sabedoria hobbesiana de que o ser humano é mau por si só..
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