Ilana Sancovschi

sou arquiteta e artista visual, sou movida por histórias, memórias e identidades...

Cultura e Identidade na Arquitetura Contemporânea Européia e Americana

Em um breve passeio por algumas obras da arquitetura contemporânea Européia e Americana percebemos como foi o seu rompimento com paradigmas clássicos e modernos, que seguiam padrões estéticos fixos e tradicionais para passar a seguir uma configuração única cultural e identitária vista antes em artes e arquiteturas reservadas a grupos étnicos e primitivos.



A Arquitetura contemporânea veio para romper com os paradigmas modernos e clássicos, mas veio também preencher um espaço no mundo atual, característico por ser multifacetado e multiidentitário girando de forma cada vez mais acelerada e olhando sempre para frente, mas sem esquecer seu passado e importando‐se também com seu legado. Os arquitetos contemporâneos buscam, de forma incansável, surpreender através do inesperado, do não óbvio. Tomar como influencia conceitual a cultura, filosofia e identidades é uma referência marcante em muitos projetos. Tão marcante que em 1995, Rem Koolhas arquiteto fundador do escritório OMA lança um ensaio sobre a ausência de identidade na cidade contemporânea. “Generic City”, que trata de uma reflexão sobre o que sobrará nas cidades globalizadas, no caso de deixarmos a identidade e a história da cidade de lado.

06 - Koolhaas_The Generic City_S,M,L,XL_1995-1,1240.jpg fonte:livro S,M,L,XL. MAU, Bruce; KOOLHAS, Rem; SIEGLER, Jennifer. Office for Metropolitan Architecture New York, 1995

"Seria a cidade contemporânea como os aeroportos – todas iguais? Esta convergência só é possível com a ausência da identidade – o que é visto usualmente como uma perda. No entanto, na escala em que ocorre, este processo deve significar alguma coisa. Quais são as desvantagens da identidade e as vantagens da ausência? E se este processo de homogeneização, aparentemente acidental fosse intencional, um movimento consciente de saída das diferenças em direção às semelhanças? E se estivéssemos testemunhando um movimento de liberação global: ‘fora coma personalidade’! O que resta depois que a identidade é despida? O genérico? “ Generic City, 1995.

Passamos então do urbano para a arquitetura. Olhando edifícios contemporâneos externamente e pelo seu exterior, muitos observadores dizem não entender seus significados, mas muitas vezes seus processos conceptivos e fundadores são tão intrigantes que surpreendem. Vamos passear por alguns edifícios, concebidos por grandes nomes da arquitetura, das ultimas décadas, nos EUA e Europa para entender este resultado.

Jean Nouvel no Arab World Institut, Paris (1981‐1987), nos surpreende ao fazer analogia aos “muxarabies” peça muito usada na arquitetura Árabe e Mourisca. Mas ele faz isso de forma muito contemporânea, usando tecnologia, usando luz e sombra. Jean Nouvel diz: “A referencia cultural na arquitetura é necessária, mas precisamos fugir de soluções prontas a favor de unir o global do específico.“ A delicadeza da identidade árabe no edifício contemporâneo foi de tal forma inserida que emociona o espectador que ao longe vê uma fachada desenhada enquanto, por dentro com o incidir da luz nas células fotovoltaicas percebe a renda maravilhosa da fachada simulando o antigo Muxarabie.

instituto-mundo-arabenyt.jpg fonte:nytimes website 438_60-alt-arabe.jpg fonte:caderno ela oglobo.com

No projeto do museu MAXXI, Museum of XXI Century arts de Zaha Hadid‐ Roma/1998‐2009, a arquiteta “pousa” o museu na malha urbana existente, dialogando com o entorno e trazendo uma continuidade da cidade para dentro da obra com uma proposta de circulação interna “quasi‐urbana”. Através da vista aérea da obra dentro da cidade, você percebe a inserção delicada do edifício na malha urbana, apesar da obra possuir proporções enormes. Ele dialoga com o entorno de forma a dar esta continuidade a este urbano.

vitruvius.com.br.jpg fonte:vitruvius.com.br MAXXI-Rome-ZHA-7686.jpg fonte:vitruvius.com cumbu.com.br.jpg fonte:www.cumbu.com.br

O Museu Judaico de Berlim , de Daniel Libeskind (finalizado em 1999),por exemplo, é um projeto perturbador na sua estética, mas ele cumpre seu papel quando fala de resgate de memórias e identidades. Toda sua concepção foi elaborada em cima da relação da história da identidade judaica alemã com a história da Alemanha. O projeto mescla o antigo e o novo além de traçar a trajetória dolorosa do holocausto através do prédio sinuoso e finalizar com um anexo externo que simboliza a emigração judaica, o “Jardim do exílio”.

Aerial View 2 (c) Guenter Schneider.jpg fonte:daniel-libeskind.com JMB Next to Original Baroque Building (c) BitterBredt.jpg fonte:daniel-libeskind.com Holocaust Tower (left) and Garden of Exile (c) BitterBredt.jpg fonte:daniel-libeskind.com Overall Composition of JMB (c) BitterBredt.jpg fonte:daniel-libeskind.com

Richard Meier na Jubilee Church, Roma (1996/2003), seguiu a teoria da Gestalt e fez referências ao cristianismo no seu projeto. Exemplo disso são as três conchas que fecham a lateral da Igreja, se referindo a Santa Trindade. O efeito de luz gerado pelo grande teto de vidro nos traz também uma sensação de eternidade direção a Deus e que sempre sentimos quando entramos em várias igrejas ao longo de séculos. O Branco nos dá uma sensação de paz interior, que na verdade é uma busca presente em toda edificação com função religiosa.

jubelee.jpg fonte:richadmeier.com jub-4.jpg fonte:richardmeier.com jub3.jpg fonte:richardmeier.com

O projeto de Norman Foster para a Galeria Sperone Westwater, New York‐2008/2010, superou o desafio de implantar em uma área inóspita de artistas e pessoas do meio. Mesmo assim o projeto veio com tanta força que chama atenção no bairro. Implantado de forma a dialogar com as formas e volumes existentes no local, mantendo a “identidade” original do bairro intacta. Ele desafia os olhares fazendo uma brincadeira com as transparências e os volumes moveis dentro do edifício.

img0.jpg fonte:fosterpartners.com img1.jpg fonte:fosterpartners.com img2.jpg fonte:fosterpartners.com

Para fechar este resumo da arquitetura contemporânea fundamentada em referencias culturais ou identitarias e filosóficas gostaria de apresentar um projeto de Peter Eisenman, um dos precursores da arquitetura contemporânea, o Memorial aos judeus mortos na Europa‐ Berlin / 2005. Neste projeto, a reflexão identitaria e cultural antecede a sua concepção e perpassa projeto desde as etapas iniciais até sua finalização. O arquiteto traduz em uma solução que ausente de símbolos e textos uma ideia de memória.

Como proposto acima, não precisamos ser explícitos para traduzir sentimentos, os espaços por si só nos trazem sensações muitas vezes maiores que as palavras. Este foi um projeto muito polêmico na Alemanha, não só pelo porte de sua construção mas pela revolução de sentimentos que gerou ao resultado final. Seu autor, em uma entrevista, fala das sensações que só podemos ter com o espaço concluído:

“Eu olhava as pessoas entrando pela primeira vez e era incrível como suas cabeças desapareciam... era como se flutuassem na água ... Primo Levi fala sobre essa sensação em seu livro sobre Auschwitz também, ele fala que os prisioneiros não estavam tão vivos mas também nem tão mortos”.

MemorialDoHolocausto_Panorama.jpg fonte:simplesmenteberlim.com 126420136.jpg fonte:viajeaquiabril.com.br

Poderia aqui ficar falando de dezenas, centenas de projetos de outros arquitetos contemporâneos importantes, e continuar viajando em referencias, já que todo projeto está ligado a conceitos que os fundamentam, a maior parte deles hoje está ligada a questões culturais, mas como o mundo gira em voltas aceleradas vamos tentando acompanhar e agora ver que nem tudo é sem fundamento.

Ilana Sancovschi

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