sobre linhas entre espaços

Sobre o que vejo, mas não entendo. Sobre o que entendo, mas não vejo.

Bruna Vieira de Assis

Arquiteta e Urbanista, apaixonada por fotografia e artes plásticas. Que vive de observar os detalhes que quase ninguém vê e os escreve para não esquecer.

Meus inimigos estão no poder?

Um breve esboço sobre a obra intitulada "Inimigos" do Artista plástico Pernambucano Gil Vicente, na visão de quem não entende de política mas vivencia a "arte" de um sistema falecido.


Meus inimigos estão no poder? Eis uma forte e trágica pergunta com impacto suficiente para agitar o sistema nervoso de uma geração. Para respondê-la é necessário viver; apenas quem viveu a revolta, mergulhou fundo em suas veias, consegue afirmar isso com total convicção. Eu, nascida nos primeiros anos da década de 80, nunca entendi tal afirmação plenamente. Minha experiência me diz que esta afirmação não passa de trecho de uma ótima canção vinda da voz do passado.

Política nunca foi minha praia, aliás, ainda hoje, não é um assunto o qual eu domine o suficiente para opinar. Parece-me que minha geração pegou tudo pronto, todas as conquistas, lutas e a tão almejada liberdade. Mesmo assim vivo em um tempo em que palhaços são eleitos (digo isso na forma literal) e no qual a capital do país é a maior fábrica de pizza delivery que conheço.

Como já disse, sei pouco sobre política e nem me interessaria abordar esse assunto que hoje escrevo aqui, até dezembro de 2010, quando me deparei com a obra do artista plástico pernambucano Gil Vicente, exposta na Bienal de Artes de São Paulo, denominada “Inimigos”. Ao chegar ao terceiro pavimento, meus olhos saltaram e as únicas palavras que chegaram em minha cabeça foram: ‘ killing the sisten ‘.

Foi um instante único, em que comecei a observar os desenhos, imaginar quantas pessoas, quanta revolta, quanta alienação, quanto desejo e poder, foram expressos por aquele artista. Quantos sentimentos de todos nós estavam representados ali com linhas firmes e frias, expostas em imagens fortes. Em seus registros visuais, Vicente retratou alguns dos maiores lideres políticos mundiais em mortes cruéis, onde foi possível vê-los degolados, assassinados e enforcados pelo próprio sistema que os levou à ascensão política mundial.

Hoje vivemos em uma democracia e eu me pergunto: os meus inimigos estão no poder? Se o inimigo é um e quem o elege são muitos, quem tem o poder? Resposta para esta pergunta não tenho, mas trago comigo a certeza de que a "morte do sistema" foi retratada de maneira sensível e forte nas linhas claras e expressionistas de Gil Vicente. IMGP0439.JPG IMGP0442.JPG IMGP0440.JPG IMGP0438.JPG

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Bruna Vieira de Assis

Arquiteta e Urbanista, apaixonada por fotografia e artes plásticas. Que vive de observar os detalhes que quase ninguém vê e os escreve para não esquecer..
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