sobre linhas entre espaços

Sobre o que vejo, mas não entendo. Sobre o que entendo, mas não vejo.

Bruna Vieira de Assis

Arquiteta e Urbanista, apaixonada por fotografia e artes plásticas. Que vive de observar os detalhes que quase ninguém vê e os escreve para não esquecer.

Das vantagens do carnaval com Magal

Sobre amores de carnaval, Lispector, Magal, óculos e vírgulas!!


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Ao fim dos carnavais surge cada história... E esta é apenas mais uma que alguém me contou... Ou terei sido eu que contei prá alguém? Sei lá... Amores de carnaval... quem nunca? Ela nunca. Sabe aquelas pessoas que são enroladas por toda a vida, não sabem paquerar, não sabem como agir e, por vezes, pensam que fazer a dança do acasalamento de algum filme do Adam Sandler pode ajudar a atrair o macho escolhido? Sim, ela é dessas. Sabe aquela velha história de “festa estranha com gente esquisita e eu não tô legal?” Pois é, a música era estranha, a bebida estranha e o calor insuportável. Ela escolheu um look estranho para um dia quente de carnaval: Uma calça Jeans e sandálias altas para “pular” na folia, em um barzinho. No set lista “da festa” tinha de tudo: Mamonas Assassinas, É o tcham, Funk, Beyoncé... e ela só entendia de rock (Punk - Rock, mais especificamente) mas com uma ressalva: ela aguardava ansiosamente ouvir alguma música de Sidney Magal.. Ahh, porque ele é clássico!! Com aquele calor estava no cenário perfeito para ir embora, se não fosse o carnaval. Ahh, o carnaval... Ela estava decidida a curtir, ser legal, não que ela não fosse legal.. Mas ahh, o carnaval... De repente ela pára e o vê. Um cara estranho, parado junto a um pilar enquanto todos pulavam. Ele estava ali, observando... Por vezes parecia até estar sentindo o som, seja ele qual fosse. Ela ficou quieta, na sua, afinal de contas ela precisava seduzir o macho escolhido, usar algumas táticas da conquista - vamos lá, jogue os cabelos! - Mas o cabelo dela era bem curtinho e o calor era tanto que ela já havia prendido os poucos fios que estavam meio soltos. Então seja sexy! Como?? Se ela estava com uma dessas calças de cintura bem alta (se sentindo retrô)? Mas o problema era que, literalmente, ela estava assando com aquela roupa. Como ser sexy??? Naquele exato momento ela percebeu que qualquer dança de acasalamento de qualquer filme do Adam Sandler não iria rolar. Até porque a única coreografia que ela sabia era uma de Axé dos anos 90, do tipo Segura o Tcham!! Então ela já havia aceitado que não iria rolar. Porém, a cada olhadinha de rabo de olho, a vontade de conversar com o broto-beleza de óculos e blusa verde (até porque ela amava verde) aumentava. Ahhh, o carnaval...

Até que uma amiga disse: Chega dessa frescura romântica!! Vamos falar com ele. Mas, contrariando tudo, ela estava ansiosa para ouvir pérolas cults da MPB , uma vez que tocariam de tudo.. Ela gritava: Toca Magal !!!!! Toca Magal!!!! Enquanto ela gritava, seus amigos foram ate o “macho escolhido”, o tal exemplar de sapiossexualidade, que vestia verde e usava óculos. Sabe-se lá o que seu amigo disse ao macho, o fato que ele veio até ela!! Ela nunca me disse no que ele reparou, mas ela, tenho certeza, reparou nos óculos... Ele, talvez nas virgulas ... Bem, não sei.. Ele chegou e disse: Oi. Meu nome é “Zé”. Vou ficar aqui só por uma noite, sou de Brasília. Mesmo assim você quer?? Ela, super sem graça, disse: Quero! Foi um “quero” engasgado, tímido e curioso... Então o beijo idealizado foi roubado... Mas o que difere essa história das demais? Foram as vírgulas e, entre beijos, saiu uma linha de conversa, onde ela percebeu que aquele exemplar da espécie se tratava de um anarquista utópico, meio rock and roll e ele percebeu que ela era inteligente demais para estar ali... E a conversa fluía fácil, parecia eles sempre estiveram ali. Era rock para lá, historias pra cá, quando, enfim, Magal chegou à pista. E o calor continuava insuportável... Quando a voz latina de Magal começa a ecoar as primeiras frases de O meu sangue ferve por você, aconteceu o seguinte diálogo: Ela disse: Eu amo Magal, acredita?? Ele retrucou: Já beijou alguém ao som de Magal? Ela respondeu: Não! (timidamente) Ele afirmou: Então irá beijar agora... “... e o meu sangue ferve por você.” Ahh, Magal!!! O desfecho foi simples e direto. Existe uma vantagem enorme em estar vivo, estar vivendo, conseguir superar, esquecer e ser apaixonado por detalhes... Em uma conversa com essa garota, ela me garantiu que foram os óculos, essa coisa de possibilidades e um amor que durasse um instante... E essa tal coisa de coragem em dizer não a aquilo e sim a isto, a fim de completar sua educação sentimental. Sim, ela teve um amor de carnaval e beijou ao som de Magal e se imaginou nos anos 70, com um “broto beleza”. Uau... Este foi seu primeiro beijo de carnaval... e de óculos e vírgula! Em tempos de redes sociais eles adicionaram-se, lógico. Mas, o amor de carnaval não acaba na quarta-feira de cinzas? Isto eles não sabem, afinal nunca viveram antes amores de carnaval... Mas ali existiu uma troca de idéias e ideais.. E por instantes alguns beijinhos! Sim, como diria Lispector: “De repente as coisas não precisam mais fazer sentido. Satisfaço-me em ser. Tu és? Tenho certeza que sim. O não sentido das coisas me faz ter um sorriso de complacência. Decerto tudo deve estar sendo o que é.” Então, Salve Magal!!

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Bruna Vieira de Assis

Arquiteta e Urbanista, apaixonada por fotografia e artes plásticas. Que vive de observar os detalhes que quase ninguém vê e os escreve para não esquecer..
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