sobre o humano

escrever é - antes de tudo - olhos, ouvidos e estômago. é preciso fome e emoção.

Isabela Bosi

gosto de escrever sobre o que [me] emociona - e sentir que só por isso vale a pena

Marina sob o fogo – quando só a poesia salva

Abrir um livro é como viajar sozinha a uma cidade desconhecida. Impossível prever como nos sentiremos ou o que nos ocorrerá ali. Pode ser uma chatice e você querer voltar logo pra casa. Mas pode, também, ser a viagem que vai mudar sua vida para sempre. Vivendo Sob o Fogo, de Marina Tsvetáieva, é - pra mim - desses livros-viagem que nos revolucionam a alma.


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Marina Tsvetáieva

“Quem é você? Um esteta ou um ser humano?
Uma nacionalidade ou um ser humano?
Uma profissão ou um ser humano?”

Marina Tsvetáieva


Acabo de ler Vivendo Sob o Fogo e meu coração está em chamas. Um fogo forte e dilacerante domina meu peito e eu percebo que é amor. Quando o livro acaba, transbordo desse sentimento pulsante, num misto de compaixão e gratidão.

São 749 páginas que carregam em si uma seleção de cartas escritas por Marina Tsvetáieva – poeta, russa, mãe, esposa, mulher, frágil, forte, ser humano, antes e acima de tudo: ser humano.

Ao longo do livro, a gente se envolve com ela por meio das correspondências que enviou a amigos e amores fugazes durante toda a vida (1892-1941). Marina, que escrevia poemas desde a adolescência, fundou a própia existência no amor.

Amou as palavras.
Amou a natureza – e tudo o que está implícito nela.
Amou a escrita – e só pela escrita foi capaz de viver.
Amou homens e mulheres.
Amou, sobretudo, a ideia de amar.

Em cada carta, relato de si e do que vivia, há um pedaço generoso dessa tentativa desesperada de amar até o limite.

“Para viver – eu preciso amar”, dizia.

Por isso – e para isso –, penso, sofreu a vida inteira. Sua forma incansável de se entregar ao amor, e de buscá-lo em cada pessoa-esperança que conhecia, levou-a de encontro a diversas desilusões. Sempre colocando-a numa posição de fragilidade solitária.

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Marina e seu marido, Sergei Efron

Apesar das trocas de cartas com tantos amores platônicos – destaque para Rainer Maria Rilke e Boris Pasternak –, Marina se sentia sempre muito só, espécie de desamparo existencial. Buraco impreenchível por outros, pela vida cotidiana ou mesmo por seus filhos e marido. Vazio que só se completava na escrita.

Talvez por isso Marina escrevesse tanto e para tantos, mesmo durante os momentos de fome, frio e cansaços profundos pelos quais passou nas duas grandes guerras. Exilada da Rússia, a escritora viveu 17 anos dividida entre a antiga Tchecoslováquia e a França.

Na luta para publicar seus textos – o que raramente acontecia –, passou por inúmeras dificuldades como mãe, poeta e mulher, enquanto o marido dedicava a vida à política.

O clima de tensão entre (e durante) as guerras exigia posicionamentos partidários – o que Marina se recusou a tomar – e cautela a cada movimento feito, a cada palavra dita e escrita. Ela não acreditava em política – antes, na vida e na natureza; no ser como algo pleno em si. Relacionava-se, portanto, com pessoas de todas as origens e ideologias. E, por isso, relacionava-se com poucos.

Seus textos quase nunca eram publicados, recusados pela imprensa russa – sua ex-casa – e rechaçados também pelos periódicos franceses, que não se interessavam pela poesia de uma exilada.

Ela não deixava de escrever por isso.

“Não se trata de modo algum de viver e escrever, mas de viver-escrever, e escrever – é viver.”

A vida só fazia sentido – quando fazia – na possibilidade de ser transformada em poesia. Sua maneira de escrever sugere pausas e respiros. Generosidade de quem conhece bem o ritmo das palavras e dos sentimentos.

Amei Marina.
A cada palavra, sorri, agradecendo-a mentalmente por ter existido. Sobretudo, por ter persistido e resistido tanto quanto pôde – na vida e nas páginas de seus cadernos.

Marina se matou pouco antes de completar 48 anos, ainda no início da II Guerra.
Exausta, completamente exausta.
Marido e filha presos e torturados.
Condições sub-humanas de vida – e Marina era humana!

Enforcou-se em casa, após escrever sua derradeira carta, ao filho caçula:

“Amo você loucamente. Compreenda que eu já não podia mais viver. Diga a papai e Ália – se você os vir – que os amei até o último minuto e explique-lhes que eu estava num beco sem saída.”

Sinto saudades dela sem tê-la conhecido.
Gostaria que não tivesse abandonado a vida, ou melhor, que a vida não a tivesse abadonado.
Dedico a ela este poema-carta, que ela mesma escreveu, como prova de que sua existência continua reverberando, décadas depois, em mim e noutros:

A CARTA

Assim não se esperam cartas.

Assim se espera - a carta.

Pedaço de papel

Com uma borda

De cola. Dentro - uma palavra

Apenas. Isto é tudo.

Assim não se espera o bem.

Assim se espera - o fim:

Salva de soldados,

No peito - três quartos

De chumbo. Céu vermelho.

E só. Isto é tudo.

Felicidade? E a idade?

A flor - floriu.

Quadrado do pátio:

Bocas de fuzil.

(Quadrado da carta:

Tinta, tanto!)

Para o sono da morte

Viver é bastante.

Quadrado da carta.

(tradução Augusto de Campos)


Isabela Bosi

gosto de escrever sobre o que [me] emociona - e sentir que só por isso vale a pena.
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