sobre o humano

escrever é - antes de tudo - olhos, ouvidos e estômago. é preciso fome e emoção.

Isabela Bosi

gosto de escrever sobre o que [me] emociona - e sentir que só por isso vale a pena

Amores em Carax

O amor – o desejo de amar – a busca por alguém que nos leve a algum lugar bonito – quando a palavra perde o sentido de ser – silêncio dos amantes. Amor que a gente insiste em tentar entender, sem que haja explicação alguma. É nesse lugar que o diretor Leos Carax inventa mundos: amores confusos, fortes, solitários, amargos e doces; amores de mentira – e tão reais.


mauvais-sang.jpgDenis Lavant e Juliette Binoche em Mauvais Sang

A primeira vez que vi Denis Lavant foi na pele do doce e estranho Alex, de Mauvais Sang. Nos primeiros minutos do filme, me vi um pouco assustada com aquela figura esquisita, de feição indecifrável. Aos poucos, porém, fiquei completamente envolvida por aquele personagem que me conquistou sem auxílio frases românticas de histórias-clichês ou beleza típica de galã de cinema. Ele me teve, ali, pelo homem que era – por mais fictício que fosse.

Saí do filme transtornada, totalmente emocionada.
Fui pra casa sozinha e devagar – acabou qualquer vontade de pressa.

Foi nesse dia que descobri Leos Carax – o diretor. Ele que nos conta a história de um rapaz que ama e, mais que isso, deseja amar; nos fala dessa solidão que perambula por corredores sombrios do nosso ser, essa solidão que tem sede de encontro, de riso, de amor físico.

O amor em Mauvais Sang é imaturo, contraditório, perturbador e maravilhosamente humano. Logo no início do filme, uma carta de despedida, covarde e sincera, termina com a frase: “Para sempre e nunca, Alex”.
Ele, o Alex que me encanta, se despede de um grande amor dizendo-se eterno e impossível. Te amo para sempre e até nunca mais. O filme poderia – se não fosse pouco demais – ser resumido nessa pequena carta de adeus.
O amor que não conseguiu ser.

Depois desse, vi todos os filmes de Carax – que não são muitos. Durante 30 anos, ele fez cinco longas-metragens: quatro com Denis Lavant como protagonista. Carax se diz sortudo por ter encontrado Denis, “um ator que pode ser música” – e, para o diretor, música é a parte mais bonita da vida.

Fico pensando que o próprio Carax é música; que, em cada obra, ele se transborda em canções que eternizam cenas e nas falas ritmadas de seus personagens extraordinários.

tumblr_m2ty1oMVLa1qkbx7ao1_1280.jpgCena de Os Amantes da Pont-Neuf

Amor na ponte
Depois de Mauvais Sang, precisei – como quem sente falta de algo que desconhece – assistir aos outros filmes de Carax. O terceiro que vi foi, coincidentemente, o terceiro que ele fez. Os Amantes da Pont-Neuf me invadiu pelo estômago. Talvez porque esteja nele o ápice da busca de Carax – em seus filmes – por um amor visceral, que consome e dá sentido à vida ao mesmo tempo.

Denis Lavant e Juliette Binoche (mesma dupla de Mauvais Sang) vivem um romance que ultrapassa os limites do politicamente correto. Uma amor esfomeado, sem teto, no frio de uma ponte abandonada, cheio de solidão, medos, insegurança, ciúme, entrega, desespero, vícios, cuidado, carinho. Mas, sobretudo, – e é aqui que mora toda a sensibilidade poética de Carax – uma história de amor. Amor com fogos de artifício, danças, risos, choros e porres juntos.

Esse amor que, de alguma forma, todo mundo já viveu. Meio torto, quase errado, mas, na verdade, totalmente certo. Contradição que se sustenta sem grandes conflitos. Um amor que, apesar de todas as forças contrárias, resiste. Talvez – e Carax nos faz refletir – amar seja simplesmente isso, um ato natural de resistência.

*

Para Carax, o cinema é uma linguagem criada por aqueles que “precisam viajar para o outro lado da vida”. Eu diria que a vida tem muitos lados e cada filme dele nos movimenta, nos faz dar de cara com um novo lugar. Não há repetição no sentir.


Filmografia

Longas:

- Boy Meets Girl (1984)
- Mauvais Sang (1986)
- Les Amants du Pont-Neuf (1991)
- Pola X (1999)
- Holy Motors (2012)

Curtas:

- Strangulation Blues (1980)
- Sans Titre (1997)
- Merde - que integra o longa-metragem Tokyo! (2008)


Isabela Bosi

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