sobre o humano

escrever é - antes de tudo - olhos, ouvidos e estômago. é preciso fome e emoção.

Isabela Bosi

gosto de escrever sobre o que [me] emociona - e sentir que só por isso vale a pena

De amor e saudade: um bolero-desilusão

Quando guitarras choram e nos mostram o que canta dentro de nós. Bolero Negro – segunda faixa do disco Valha, da Paula Tesser – é dessas canções que guardam histórias de amor e seus fins.


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Paula Tesser - foto de divulgação do disco Valha

O amor – como tudo o que vale a pena nessa vida – é um risco. Amar é soltar-se da corda de segurança e deixar-se cair, cair, cair, voar?, cair, chegar a algum lugar especial ou doer-se no fim – ou ambos.

Alguns, para seguir vivendo, escrevem – beleza que nasce do frio, do cinza. Desses, há os que transformam as palavras-dor em música, dissolvendo a saudade resistente em notas que, de alguma forma, preenchem o vazio.

Vejo Bolero Negro assim, como uma flor no asfalto, dessas que sofrem um tanto pra sair e, por isso, comovem tanto. A canção, composta por Dustan Gallas e Fausto Nilo, mostra um amor desses que vêm com força – “tudo eu quis: tua boca, teu bolero negro, teu olhar feliz” – e, logo, se vão, restando um gosto de impossibilidade, de fim.

A música é a segunda faixa do disco Valha (2013), da cantora Paula Tesser – produzido e mixado pelo Dustan, que também assina três composições do álbum. Paula nos guia pelo bolero, permitindo-nos fechar os olhos e nos deixar levar por ela, sem medo. Uma voz doce, feminina – suave e forte. O leve e o pesado, desse amor que foi e não foi, juntos.

A canção desperta com uma bateria meio decadente, uma guitarra tristinha e nos conduz a um desses cabarés antigos, vestidos curtos, suor na testa, olhares de desilusão, até chegar na frase: “Por quantos versos vou te amar, não sei.” Primeiro melhor momento da música. Com a declaração, a guitarra vai caindo, chorando, na lembrança de um amor que não cabe mais – mesmo ainda existindo.

Depois, a música se recompõe. Segue. Como quem sofre, mas enxuga as lágrimas – é preciso (tentar) ser forte.

A história de amor é contada e, aos poucos, vê-se o fim iminente: de corpos unidos em paisagens curvilíneas a mentiras cheias de razão e choros de saudade.

“Não quero mais. Teu verso de bolero me esqueceu na solidão. Eu te perdi em minhas mãos, talvez”. A voz de Paula quase sussurra, num segredo, e a guitarra de Dustan cai novamente, dessa vez se entrega, afundando num solo triste, quase desesperado, consciente do fim – da perda. E eu amo essa guitarra, porque sou também ela. Somos.

É quando o bolero-desilusão acaba, quatro minutos e vinte e quatro segundos depois. Fica meio difícil recuperar o fôlego. O disco segue com outras canções bonitas, mas um pedaço meu fica ali, na segunda faixa, preso no repeat.

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Paula Tesser é cantora, francesa, filha de pais brasileiros, doutora em Sociologia pela Sorbonne (Paris) e faz parte da atual e supertalentosa geração da música cearense. Você pode ouvir Bolero Negro e todo o disco clicando AQUI.


Isabela Bosi

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