sobre o humano

escrever é - antes de tudo - olhos, ouvidos e estômago. é preciso fome e emoção.

Isabela Bosi

gosto de escrever sobre o que [me] emociona - e sentir que só por isso vale a pena

Waly Salut Au Monde

Falar de Waly é comprometer-se com o insuficiente, saber-se incapaz e, ainda assim, tentar, porque sim, porque ele mora em mim e me revira um tanto, vez ou outra.


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O título desse texto eu peguei emprestado dele, o poeta baiano Waly Salomão, que tinha o poder – gosto de pensá-lo assim, numa espécie de poder mágico – de brincar com palavras e sons como poucos seres humanos têm. Salomão? Por que não um salut au monde? Em francês mesmo, porque pra quem sabe fazer malabarismos com as letras, um só idioma não basta.

Pouca coisa bastava pra ele na hora de escrever. Poesias que gritam, berram, uivam, gargalham, se esparramam, habitam o extremo. Mas o excesso em Waly contraditoriamente não sobra. Todo o muito dele é necessário, importa e interessa. Como no “da” a mais de “liberdadade”, da poesia “Na esfera da produção de si mesmo”, publicada no (meu preferido) livro “Gigolô de Bibelôs”:

EMPAPAR toda a superfície branca do papel –
As palavras em liberdadade
As palavras em liberdade como
Parte da luta libertária do poeta

É por essa liberdadade que Waly lutou a vida toda ao escrever. Escrita como urro desesperado, tentativa de não enlouquecer – melhor: de permanecer na loucura, já que “o poeta carrega um estandarte escrito/sou sempre doido”.

A escrita como tentativa de sobrevivência neste mundo apertado, pequeno, abafado demais pra quem tem sede de expansão que nem Waly. “Minha sede não é qualquer copo d’água que mata/essa sede é uma sede do próprio mar” e, se não nos é possível beber todo o oceano, o que nos resta além de escrever que o beberíamos? D’um gole só!

Ler Waly, aviso logo, é como correr não sei quantos quilômetros na areia fofa. É preciso fôlego, pausas pra tomar uma aguinha (ou todo o mar, se assim preferirmos) e, depois, voltar – ah, o vício da endorfina! Gosto de lê-lo em voz alta – como imagino que ele o fazia ao terminar um poema. Faz mais sentido lê-lo assim, criando entonações, rindo, chorando, gritando ou mesmo sussurrando, mas sempre em alta velocidade no desafio de acertar todas as palavras-cascas-de-banana , como em “alergia”, em vez de uma óbvia “alegria”, ao rimar a Bahia, no poema “Bahia Turva”.

É preciso abandonar o olho fóssil e assumir o olho míssil.
Só assim não se escorrega na poesia de Waly.

Ele, que tinha fome de se tornar em tudo que não era, foi poeta, letrista, ensaísta, artista visual, dentre outros ofícios. Mas, claro, nada disso bastaria pra ele – e não basta mesmo, Waly. Ter esse buraco impreenchível no estômago é o que provoca a escrita. Quando se torna em tudo o que não se é, acabou a poesia – e Waly escreveu até o fim e sempre. Sorte nossa.



Isabela Bosi

gosto de escrever sobre o que [me] emociona - e sentir que só por isso vale a pena.
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